Desigualdade sob Duas Perspectivas
MANAUS (AM) – Pesquisas recentes do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e do World Inequality Lab oferecem diagnósticos que, à primeira vista, parecem opostos em relação à desigualdade no Brasil. Contudo, uma análise minuciosa dos dados demonstra que os levantamentos não se contradizem, mas sim abordam aspectos distintos de um mesmo fenômeno social.
O Ipea aponta uma queda histórica da desigualdade, conforme medido pelo coeficiente de Gini, além de uma redução significativa da pobreza e da extrema pobreza. Em contrapartida, o relatório internacional revela que a concentração de renda e riqueza no topo da pirâmide social brasileira continua entre as mais elevadas do mundo. Em termos práticos, isso significa que, embora a desigualdade tenha diminuído entre as camadas mais pobres, ela permanece quase inalterada para os mais ricos.
A Concentração de Renda e Riqueza
Apesar das melhorias indicadas pelo Ipea, o World Inequality Report 2026 classifica o Brasil entre os países com a maior concentração de renda e riqueza global. De acordo com o relatório, os 10% mais ricos detêm cerca de 59% da renda total do país, enquanto os 50% mais pobres recebem pouco mais de 9% desse total.
“O Brasil continua a figurar entre as nações com maior concentração de renda do mundo, onde uma parcela significativa da renda nacional é apropriada pela elite”, afirma o relatório.
No que diz respeito à riqueza acumulada, a situação é ainda mais alarmante. O estudo revela que os 10% mais ricos controlam aproximadamente 70% de toda a riqueza nacional, com o 1% mais rico possuindo cerca de 37% do patrimônio total. “A desigualdade de riqueza no Brasil é significativamente mais acentuada do que a desigualdade de renda, evidenciando uma estrutura de desigualdade profundamente enraizada”, destacam os pesquisadores.
Metodologias Distintas e suas Implicações
Os autores do World Inequality Lab explicam que a disparidade nas conclusões em relação aos dados do IPEA deve-se às abordagens metodológicas diferentes. Enquanto o instituto brasileiro utiliza principalmente pesquisas domiciliares, o relatório internacional integra dados fiscais, contas nacionais e estimativas específicas para capturar rendimentos e patrimônios elevados, frequentemente subestimados em levantamentos tradicionais.
O estudo reforça que mesmo em contextos de crescimento econômico e redução da pobreza, a proporção de renda e riqueza pertencente aos mais abastados pode permanecer estável. “A diminuição da pobreza não garante, necessariamente, uma transformação significativa na estrutura de concentração no topo da pirâmide”, apontam os especialistas.
Resultados do IPEA e o Coeficiente de Gini
O Ipea revelou que, em 2024, o Brasil atingiu os melhores indicadores de renda, pobreza e desigualdade desde o início da série histórica, em 1995. A renda domiciliar per capita chegou ao seu maior patamar já registrado, enquanto a extrema pobreza caiu para menos de 5% da população. O instituto atribui esse progresso à recuperação do mercado de trabalho e ao fortalecimento das políticas de transferência de renda.
O coeficiente de Gini, que mede a distribuição da renda entre os domicílios (variando de zero a um, onde valores mais próximos de zero indicam menor desigualdade), mostra que o Brasil alcançou em 2024 a menor taxa de desigualdade desde o início da série histórica. Ao mesmo tempo, o país registrou recordes de renda média e significativas reduções da pobreza e da extrema pobreza, conforme divulgado pelo Ipea.
“Os dados do coeficiente de Gini refletem, em grande parte, o aumento da renda entre os domicílios de menor rendimento, após anos de crise econômica e perda do poder de compra”, destaca o Ipea. Essa melhora, segundo o órgão, é um desdobramento de uma trajetória observada em períodos anteriores, especialmente entre 2003 e 2014 e, mais recentemente, entre 2021 e 2024. “A recente diminuição da desigualdade está ligada tanto ao crescimento da renda do trabalho quanto à ampliação das políticas de proteção social”, conclui o instituto.
