Crescimento das Megaigrejas nos EUA
A cada semana, 45 mil pessoas se reúnem em um estádio de basquete transformado em templo em Houston. Na véspera de Natal, o ambiente da Igreja Lakewood parecia refletir a diversidade dos Estados Unidos, com fiéis vestidos em trajes vermelhos. Quando o pastor começou a narrar a história do nascimento de Jesus, as telas gigantes ao fundo iluminavam a mensagem, enquanto máquinas de fumaça criavam uma atmosfera envolvente. Em um momento, um cantor apresentou uma versão gospel de ‘Noite Silenciosa’ em espanhol, e a vibração do contrabaixo reverberava entre todos os presentes.
Pesquisas apontam que cultos como este, na maior igreja dos EUA, proporcionam experiências tão intensas que os fiéis podem até se sentir como se estivessem sob efeito de substâncias. Não é surpreendente, portanto, que enquanto muitas igrejas americanas enfrentam dificuldades para atrair novos membros, as megaigrejas — que somam cerca de 1.800 com produções dignas de Hollywood — continuam a crescer em números.
A Mudança de Cenário Religioso
Nos últimos anos, muitos americanos têm migrado para os subúrbios do chamado ‘cinturão do sol’, áreas onde essas megaigrejas se tornam cada vez mais populares. Durante a pandemia de coronavírus, muitas pequenas igrejas fecharam, enquanto as grandes congregações estavam preparadas para acolher seus fiéis. Atualmente, 70% das pessoas frequentam as 10% maiores igrejas, refletindo uma mudança significativa no cenário religioso do país.
As megaigrejas, que têm um modelo de negócios focado em expansão, atraem um público considerável, com aproximadamente um sexto dos frequentadores sendo novos visitantes, conforme aponta Scott Thumma, do Instituto Hartford para Pesquisa Religiosa. Um exemplo é a North Point Community Church, situada nos arredores de Atlanta, onde neve artificial caiu durante uma recente cerimônia de abertura. Voluntários no local presentes no ‘estande de conexões’ oferecem presentes aos visitantes e os incentivam a se integrar em pequenos grupos.
Estratégias de Expansão e Financiamento
Para atingir novos membros, as megaigrejas têm adotado a criação de franquias. Algumas alugam espaços em ginásios de escolas e teatros em desuso nas manhãs de domingo, enquanto outras expandem sua presença comprando novos imóveis. A Life Church, localizada em Oklahoma, possui 46 campi, e a Church of the Highlands, no Alabama, conta com 27.
Essa expansão faz da igreja um espaço multifuncional, onde os membros não apenas participam de cultos, mas também praticam esportes, recebem aconselhamento e realizam atividades educacionais. Muitas megaigrejas já administram instituições de ensino superior.
Essas operações também se refletem na arrecadação financeira. Pesquisas do Instituto Hartford mostram que a receita anual média de uma megaigreja aumentou em 25% entre 2020 e 2025, passando de cerca de US$ 5,3 milhões para US$ 6,6 milhões, sendo que a maior parte desses recursos provém de doações dos fiéis.
Desafios e Críticas
As megaigrejas reportam destinar aproximadamente metade de suas receitas ao pagamento de salários, mais de um terço para a manutenção de suas instalações e um décimo para atividades de caridade. Contudo, além das informações que divulgam, suas finanças permanecem muitas vezes envoltas em mistério. A legislação tributária federal isenta as igrejas de apresentar declarações anuais, dificultando a fiscalização por parte de órgãos externos. Segundo Lloyd Hitoshi Mayer, da Universidade de Notre Dame, ‘as únicas pessoas que fiscalizam essas grandes igrejas são as que estão dentro delas’.
Além de levantar questões sobre transparência financeira, o glamour associado a algumas megaigrejas também gera desconfiança. Vários pastores residem em mansões e aceitam presentes valiosos de seus fiéis, enquanto outros conseguem lucrar milhões com livros e produtos relacionados. Aproximadamente um quarto dos pastores prega o evangelho da prosperidade, que promete recompensas materiais a quem demonstra fé. ‘Não posso ser uma grande bênção para as pessoas se sou pobre, quebrado e deprimido’, afirma Joel Osteen, pastor sênior da Lakewood, em uma aparição no programa da apresentadora Oprah Winfrey.
A Relutância em Abordar Questões Políticas
Durante décadas, as megaigrejas têm sido influentes no mundo evangélico, com suas músicas e sermões conquistando grande popularidade. Entretanto, a maioria delas evita se envolver em debates políticos. Questões controversas, como o aborto e a homossexualidade, raramente são abordadas do púlpito. Embora o governo de Donald Trump tenha revogado regras que restringiam isenções fiscais para pastores que se manifestassem politicamente, muitas megaigrejas continuam relutantes em tomar partido.
De acordo com Ryan Burge, especialista em religião na Universidade de Washington, ‘eles não são profetas gritando no deserto; esses caras administram impérios de milhões de dólares. Por que colocariam isso em risco?’. Albert Mohler, diretor do Seminário Teológico Batista do Sul, acredita que a nova geração busca um cristianismo mais sério e que as megaigrejas diminuirão se não oferecerem valor social aos seus membros. Ele critica o evangelho da prosperidade, considerando-o uma ‘ameaça direta ao cristianismo bíblico’.
Curiosamente, dentro da Igreja Lakewood, símbolos tradicionais da fé cristã estão ausentes. Em vez disso, uma enorme bandeira americana domina o fundo do estádio, refletindo o que parece ser um apelo ao capitalismo americano em detrimento dos ensinamentos religiosos mais profundos.
