Um Retrato da Realidade em Manaus
Em um sábado de Aleluia, Manaus se transforma em cenário de contrastes. Enquanto a tradicional malhação de Judas acontece, a narrativa de Sol e sua mãe Joana, presente no livro “Degola” de Monique Malcher, revela uma realidade brutal. A protagonista compartilha a história de sua família, desde a sua chegada à capital amazonense até os desafios enfrentados em uma ocupação. O romance, dividido em três partes, retrata a transição de Sol, que deixa Santarém em busca de melhores oportunidades diante da promessa de progresso da Zona Franca. No entanto, essa mudança também traz à tona a dor da perda de seu irmão Yan, que se afogou aos sete anos em uma piscina comunitária.
No presente da história, a Sol adulta revisita a infância em que, com suas mãos, moldava o barro para criar brinquedos. Em meio a um ambiente que parece frágil, onde as casas são feitas de sobras, a autora provoca reflexões profundas ao descrever a luta dos moradores da ocupação. “Cada tábua dos barracos contava sobre o encontro dos moradores com a gentileza e o perigo da vida. Uma casa ia sendo montada aos poucos…”, destaca Malcher ao abordar a resistência dos que habitam esses espaços precários.
Deslocamento e Reinvenção
“Degola” não apenas expõe a vida cotidiana em uma ocupação, mas também oferece uma visão íntima sobre os desafios enfrentados por aqueles que buscam refúgio e recomeço. Através da voz de Sol, somos guiados por um universo onde a criança lida com a realidade crua de uma comunidade marcada pela violência. A descrição vívida da narrativa evidencia a precariedade da vida na ocupação e as esperanças de um futuro melhor. A luta por moradia e dignidade se entrelaça com a vida de Sol, que, ao lado de suas amigas imaginárias, Juvinha e Barrinha, transforma a dor em afeto, embora essa tarefa se revele complexa.
A autora expõe, sem eufemismos, a brutalidade que permeia a existência na ocupação. “Na ocupação as cabeças não eram escondidas…”, relata a protagonista, ressaltando a normalização da violência e da morte em um contexto onde o medo é constante. Nesse ambiente, as figuras de liderança, como o pai de Sol e Irmã Eliana, se destacam, enfrentando os perigos de grileiros e latifundiários em nome da solidariedade e da ajuda aos deslocados. A narrativa visual de Malcher é precisa, ainda que em alguns momentos sutilmente contida emocionalmente.
A Metáfora da Água
Monique Malcher, que nasceu em Santarém e é jornalista e pesquisadora, também aborda a conexão com a água ao longo da obra. A relação dos personagens com esse elemento é explorada em detalhes, mostrando como a água pode evocar tanto memórias dolorosas quanto um sentido de pertencimento. A decisão de Joana em matricular os filhos em aulas de natação surge como uma metáfora poderosa, refletindo uma necessidade de estar em harmonia com o elemento aquático que, segundo a cosmovisão indígena, é fonte de vida e conexão espiritual. A ideia de que a água não é apenas um elemento, mas um símbolo de vida e origem, permeia toda a narrativa.
Reflexões e Desafios do Passado
A memória é um tema central em “Degola”, e Sol, ao revisitar sua história, nos faz questionar como o passado molda o presente. O desejo de compreender e enfrentar as perdas se torna palpável nas suas experiências de vida, da infância à vida adulta. A narrativa é enriquecida por referências literárias e poéticas, que se combinam com uma linguagem incisiva e contundente. A obra não só se apresenta como um relato pessoal, mas também como um espelho da realidade de muitos que vivem nas margens da sociedade.
Ao entrelaçar a água com a morte e a luta por um futuro digno, Malcher cria uma obra que ressoa além de suas páginas. A busca por um lar, por uma identidade e por um caminho de superação se faz presente em cada linha. “Degola” é um convite à reflexão sobre a violência, a memória e a resistência dos que, ainda assim, sonham em construir uma vida mais justa.
