Reflexões Sobre o Sofrimento e a Existência
Na próxima quinta-feira, 15 de janeiro, o padre João Gonçalves apresentará seu novo livro, intitulado “De profundis. Pensar e acreditar depois de Auschwitz”, em um evento que ocorrerá no Museu de Arte Sacra, às 18h30. Durante uma entrevista ao Jornal da Madeira, o autor compartilhou que seu interesse pelo tema não surgiu de uma análise filosófica, mas sim de um verso impactante de um poeta da literatura de cordel, Leandro Gomes de Barros. Ele destaca uma pergunta poética que o marcou profundamente: “Quem foi temperar o choro e acabou salgando o pranto?” Essa reflexão despertou nele a necessidade de abordar e escrever sobre o sofrimento humano.
O padre Gonçalves destaca que, embora sua investigação esteja focada no século XX, principalmente no contexto do Holocausto, Auschwitz não é uma questão apenas do passado. Para ele, “Auschwitz é um símbolo das vítimas de todas as tiranias, que ainda persistem no século XXI”. A ideia de Auschwitz transcende a mera referência geográfica, tornando-se um campo semântico mais amplo, que representa a luta contra qualquer forma de opressão.
A Vida e o Sofrimento: Questões Universais
O livro não é direcionado apenas a religiosos. O sacerdote propõe uma pergunta essencial que ecoa através da história da humanidade: “Apesar do sofrimento e da dor, a vida vale a pena ser vivida?” Com essa abordagem, ele busca abrir um diálogo que não se limita a um discurso religioso, mas se amplia para uma reflexão existencial. “Apresento minha perspectiva de crente, mas as questões que levanto estão em aberto”, afirma o autor.
Ao abordar a transição do contexto histórico do século XX para a realidade atual, o padre Gonçalves aponta para um ponto em comum entre os totalitarismos e os conflitos contemporâneos: a lógica da legitimação. Ele esclarece que, embora Auschwitz represente um tipo de tirania diferente, existe uma conectividade entre as justificativas para a violência. “Não há boas razões para a guerra ou para a violência”, alerta, fazendo uma crítica contundente às narrativas que tentam legitimar ações bélicas, como as que justificam a invasão de Gaza ou a guerra na Ucrânia.
A Banalização do Mal e o Silêncio Divino
Segundo o autor, a exposição constante ao sofrimento humano, tanto através da mídia tradicional quanto das redes sociais, pode levar à insensibilidade. “Estamos nos acostumando a ver pessoas sofrendo, o que é perigoso e pode resultar na banalização do mal”, enfatiza. Ele ressalta a importância de não permitir que isso aconteça, pois “o mal é sempre mal”.
Outro tema relevante que permeia seu livro é o “silêncio de Deus”. Gonçalves refere-se a essa questão como algo complexo, podendo representar tanto a presença reconfortante diante da dor quanto a sensação de distanciamento. Ao abordar a experiência espiritual de quem sofreu, ele menciona que muitos crentes continuaram a rezar dentro dos campos de concentração. Cita Etty Hillesum, que expressou a ideia de ajudar Deus a não abandoná-la, sugerindo uma nova sensibilidade na relação entre o ser humano e o divino.
Reflexões Jurídicas e Éticas
O diálogo se estende aos desafios éticos e jurídicos que surgem em sociedades cultas que permitiram a execução de atrocidades em larga escala. O padre Gonçalves lembra que o Holocausto ocorreu em “uma das sociedades mais evoluídas da Europa”, questionando como um governo democraticamente eleito pode executar tão grande mal. Ele menciona o julgamento de Nuremberga, onde os acusados alegaram que estavam apenas cumprindo ordens. Esse argumento, embora reconhecido, levanta questões importantes sobre a moralidade da obediência às leis que ferem a dignidade humana.
Para o autor, a reflexão sobre a legislação não deve ser apenas de obediência cega, mas exige uma consciência crítica. “Há limites à lei e até à democracia”, alerta, enfatizando a necessidade de questionar as narrativas de medo que podem capturar sociedades inteiras. Ele recorda que Hitler já havia delineado suas intenções antes de chegar ao poder, destacando a importância de estarmos atentos às ações e discursos que promovem a violência.
Um Chamado à Transformação Teológica
Ao ser questionado sobre a necessidade de reavaliar a teologia após Auschwitz, o padre Gonçalves afirma que a tradição precisa incorporar a dimensão do sofrimento humano. “Faltava carne a essa teologia”, diz, referindo-se à necessidade de uma abordagem que leve em conta as experiências daqueles que sofreram. Sua abordagem destaca que o Evangelho deve se aplicar à vida pública e que a reflexão teológica deve ser contextualizada.
A oração, segundo Gonçalves, deve ser um encontro genuíno, desinteressado, uma “oração de mãos vazias”. Ele ressalta que entender e escutar as vítimas é uma condição para se chegar à verdade. O autor fecha a entrevista refletindo sobre sua própria transformação ao escrever o livro, destacando que cada interação com um tema tão profundo e doloroso deixa marcas duradouras. “Toda teologia deve ser de libertação, e a liberdade é a categoria fundamental”, conclui, enfatizando a importância da liberdade em todas as suas relações e ações sociais.
