Incertezas da Comunidade Venezuelana em Manaus
A captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, pelas forças dos Estados Unidos completa uma semana neste sábado (10). Apesar da queda do ditador, muitos venezuelanos que se estabeleceram em Manaus, no Amazonas, continuam hesitantes em retornar ao seu país natal. O temor de uma nova instabilidade política persiste entre as famílias que deixaram tudo para garantir segurança no Brasil.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Amazonas é o segundo estado brasileiro com o maior número de imigrantes venezuelanos, só perdendo para Roraima. Em Manaus, a presença dessa comunidade se torna cada vez mais evidente. Enquanto crianças brincam nos abrigos, os adultos lidam com a incerteza do futuro.
Juan Alberto Moreno, um engenheiro de sistemas, descreve a difícil realidade da sua família. Ele deixou sua profissão para se dedicar integralmente ao sustento da casa: “No caso da minha esposa, que é administradora, ela também teve que abandonar a profissão. Eu sou engenheiro, mas trabalho no que aparece: limpando ruas, lavando carros… temos que sustentar a família”.
Failin Falkenhagen, esposa de Juan, expressa a cautela diante da situação na Venezuela: “Alguém precisava agir. Claro, acredito que ele [Donald Trump] tem seus próprios interesses, mas não considero que isso seja a solução definitiva; pode ser apenas o começo de algo novo”. Para o casal, voltar à Venezuela não é uma opção; nos próximos dias, eles planejam se mudar para Curitiba, onde possuem familiares.
Desafios da Imigração e Expectativas de Aumento no Fluxo
O casal chegou a Manaus antes do Natal, trazendo os três filhos e encontrando abrigo em uma casa mantida pela Igreja Católica, que atende exclusivamente migrantes. Dentre os 15 ocupantes do local, 13 são venezuelanos. Ninguém chegou após a prisão de Maduro, mas a expectativa é que isso mude.
O padre Max Renaud, coordenador da Casa do Migrante, acredita que o número de imigrantes aumentará. “Nos próximos dias, devemos receber muitos mais venezuelanos, uma vez que a situação no país está bastante delicada. Vamos precisar abrir as portas para acolher aqueles que necessitam”. Ele destaca a burocracia como um dos principais obstáculos que os imigrantes enfrentam ao tentar regularizar seus documentos no Brasil.
Busca por Regularização e Processos Burocráticos
Conforme especialistas consultados pela Rede Amazônica, a maioria dos venezuelanos que chega ao Brasil busca regularizar sua situação. Muitos chegam já informados sobre o processo de solicitação de residência, orientados por amigos e familiares que enfrentaram desafios semelhantes. No entanto, apenas uma minoria opta por solicitar reconhecimento como refugiados, geralmente aqueles que não têm documentos.
Em Manaus, o pedido de residência deve ser feito no PAC da Compensa, que dispõe de instalações provisórias. O processo envolve a Secretaria Estadual de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania, além da Polícia Federal. Atualmente, aqueles que chegam ao Brasil enfrentam uma espera de até um mês para agendar um atendimento.
Roberto D’Angelo, coordenador da Associação de Venezuelanos no Amazonas (ASOVEAM), explicou que o atendimento estava comprometido devido à alta demanda: “Tínhamos muitas solicitações, mas não havia servidores suficientes para atender”. O fluxo de venezuelanos começou a aumentar em 2017, quando a crise em seu país obrigou milhares a buscarem refúgio no Brasil. Na época, muitos chegaram a dormir em barracas próximas à rodoviária de Manaus.
Organizações internacionais se instalaram na cidade para prestar apoio, mas os cortes de verba anunciados pelo presidente Donald Trump no ano passado resultaram no fechamento de diversos escritórios, deixando as entidades locais sem suporte. Roberto D’Angelo analisa o cenário político na Venezuela e afirma que as incertezas são grandes, mesmo após a intervenção dos Estados Unidos. “Se a mudança resulta apenas em substituir um que estava no poder por outro ainda pior, isso se torna complicado. Espero que essa não seja a realidade”.
