O Crescente Alerta sobre o Turismo de Massa
Nos últimos meses, o turismo de massa nas principais praias do Brasil acendeu um sinal vermelho com casos de brigas, desordem e superlotação. Após um incidente em Porto de Galinhas, a prefeitura de Ipojuca, em Pernambuco, tomou a iniciativa de proibir a exigência de consumação mínima nas areias. Outras localidades, como Niterói (RJ), estabeleceram um teto de R$ 22,85 para aluguel de barracas, enquanto cidades como Florianópolis, Arraial do Cabo e Ubatuba intensificaram a fiscalização para coibir abusos.
Além das regulamentações comerciais, a gestão de visitantes em áreas de proteção ambiental vem sendo aprimorada. Jericoacoara (CE), Ilha Grande (RJ) e Morro de São Paulo (BA) enfrentam processos judiciais devido à cobrança de taxas de visitação. Nos Lençóis Maranhenses (MA), que recentemente foi reconhecido como Patrimônio Natural Mundial pela Unesco, a possibilidade de um limite diário de visitantes está sendo avaliada pelos gestores locais.
Restrições e Exemplos Internacionais
Globalmente, diversas localidades já implementaram medidas similares para proteger seus destinos turísticos. Monte Fuji, no Japão, e Machu Picchu, no Peru, adotaram limites nos horários e na quantidade de visitantes diários. Veneza, na Itália, também impôs restrições, enquanto Mallorca, na Espanha, passou a cobrar taxas de entrada.
Em 2023, o Brasil recebeu um número recorde de 9,3 milhões de turistas internacionais, um aumento de 37% em relação ao ano anterior, quando foram registrados 6,7 milhões. Os argentinos foram os que mais visitaram o país, seguidos de chilenos, norte-americanos, paraguaios e uruguaios.
A Necessidade de Planejamento e Sustentabilidade
Com a crescente demanda, ficou evidente a necessidade de um planejamento sustentável. Ana Carla Lopes, secretária-executiva do Ministério do Turismo, ressaltou a importância de uma “política integrada” envolvendo os setores público e privado, além da sociedade civil, para garantir que o crescimento do turismo beneficie a todos. A secretária enfatizou que questões como a cobrança de taxas de visitação e descontos para moradores devem ser discutidas de forma coletiva, levando em consideração a realidade de cada local.
A situação em Porto de Galinhas, que viu 1,2 milhão de visitantes em 2025, ilustra bem a problemática. No passado, em 2019, o número era de 937 mil. O turismo, embora tenha impulsionado o PIB local, deixou à mostra problemas de saneamento e desordem urbana, conforme apontado por moradores e especialistas. O urbanista Zeca Brandão, que coordenou um projeto de qualificação urbana em 2005, comentou sobre a falta de infraestrutura que ainda afeta a população local.
Impactos na Comunidade Local
O crescimento do turismo na região do litoral sul de Pernambuco não é recente. Desde que Porto de Galinhas foi descoberta pela classe média nos anos 1970, o destino passou por um crescimento descontrolado. O urbanista alerta para os perigos desse crescimento sem planejamento, o que muitas vezes resulta em deterioração do ambiente local. Ele critica a lentidão das respostas do poder público diante da necessidade de melhorias na infraestrutura de saúde, educação e segurança.
O Caso dos Lençóis Maranhenses
No Maranhão, Matteo Soussinr, proprietário de uma pousada em Santo Amaro, observou um crescimento desmesurado no número de visitantes. De 61 mil em 2021, o número saltou para 297 mil em 2024. O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, que já viu 440 mil visitas somente no último ano, está considerando limitar o acesso diário para preservar o meio ambiente. Actualmente, visitantes pagam R$ 10 por uma estadia de três dias e um imposto sobre passeios.
Soussinr destaca que o crescimento econômico traz benefícios, mas também levanta preocupações sobre o impacto ambiental, especialmente em relação ao lençol freático. Ele menciona Barreirinhas como um exemplo de como a falta de planejamento pode resultar em problemas sérios, como a especulação imobiliária e a poluição.
A Necessidade de Políticas Públicas
Mariana Aldrigui, pesquisadora da USP, critica a falta de políticas públicas voltadas ao ordenamento do turismo no Brasil. Segundo ela, as ações frequentemente surgem apenas quando problemas se tornam evidentes, e a massificação do turismo é um fenômeno gradual que deve ser discutido antes de se tornar um problema maior. Em 2024, os Parques Nacionais brasileiros alcançaram o recorde de 12,4 milhões de visitas, e o ICMBio reconhece que o turismo de massa é uma realidade que precisa ser gerenciada com estratégia e cuidado.
Em resposta aos desafios, o Ministério do Turismo tem promovido iniciativas para um turismo responsável, buscando diversificar os destinos e reduzir a concentração de visitantes em locais populares. Programas como o Lixo Zero e atualizações no Mapa do Turismo Responsável são parte desse esforço contínuo.
