Entenda como o Fungo Zumbi Age nas Tarântulas
Recentemente, um vídeo chamativo mostrando o fungo Cordyceps Caloceroides infectando uma tarântula da espécie Theraphosa blondii, encontrado na Reserva Adolpho Ducke, próximo a Manaus, repercutiu bastante nas redes sociais. Este fungo, conhecido como ‘zumbi’, demonstrou ser altamente especializado e, de acordo com especialistas, não representa nenhum risco para os seres humanos.
O professor Elisandro Ricardo Drechsler-Santos, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), elucidou como esse organismo age. Em uma conversa com nossa equipe, o pesquisador explicou que a infecção por esses fungos ocorre apenas em hospedeiros muito específicos, que, neste caso, são insetos e aracnídeos. Eles dependem diretamente desses organismos para completar seu ciclo de vida.
“Isso faz sentido do ponto de vista evolutivo, pois eles utilizam um recurso muito específico para se desenvolver”, destacou Elisandro. No vídeo, é possível observar uma estrutura alaranjada, que se projeta do corpo da aranha, formando a estrutura reprodutiva do fungo. Após a infecção, a aranha altera seu comportamento, mudando-se para o solo da floresta, que é coberto por uma camada espessa de folhas e matéria orgânica.
De acordo com o professor, a grande dimensão da tarântula fornece energia suficiente para que o fungo desenvolva essa estrutura longa que se destaca na superfície do solo. No extremo dessa formação fica a região fértil, onde os esporos são produzidos e eventualmente liberados.
Aspectos Evolutivos e a Relação com a Biodiversidade
Elisandro também comentou sobre a relevância do exemplar encontrado, que está entre os mais bem preservados já registrados, possibilitando comparações com fungos de outras regiões do Brasil e diferentes biomas. O especialista reiterou que esse tipo de fungo não afeta os seres humanos. Ele observa que diariamente as pessoas respiram milhares de esporos de diversos fungos sem adoecer, graças à ação do sistema imunológico.
“Respiramos mais de dez mil esporos a cada inspiração e ainda assim não nos contaminamos. Este grupo de fungos é extremamente especializado em insetos e aracnídeos”, afirmou. A interação entre fungos e seus hospedeiros remonta a milhões de anos, e estudos já indicam que a associação entre fungos e as chamadas ‘formigas-zumbis’ pode ter surgido há mais de cinquenta milhões de anos.
“Na natureza, tudo está interligado. Muitas vezes, olhamos para as espécies de forma isolada, mas todas evoluíram em conjunto”, ressaltou o professor.
A Importância da Conservação dos Fungos
Além disso, Elisandro enfatizou a importância de estudar e preservar os fungos. Recentemente, esses organismos passaram a ser reconhecidos oficialmente no Brasil como um componente vital da biodiversidade, ao lado da fauna e flora. “Hoje, falamos em fauna, flora e funga”, declarou.
Ele ainda ressaltou que os fungos desempenham um papel essencial nos ecossistemas e possuem um grande potencial econômico. “Eles são recursos importantes para a indústria farmacêutica, alimentícia e para a medicina. A penicilina é um exemplo clássico”, explicou.
O Brasil abriga mais de 10% da biodiversidade do planeta, incluindo muitas espécies de fungos que são exclusivas do nosso território. Para o pesquisador, compreender essa diversidade vai além da mera evolução científica. “Esse conhecimento pode promover avanços socioeconômicos e é uma parte fundamental da soberania do nosso país”, concluiu.
