O Colapso da Educação Básica Mundial
MANAUS (AM) – A educação básica enfrenta um futuro incerto, com a previsão de que não atingirá nenhuma das metas globais estabelecidas para 2030. Essa constatação alarmante é parte das análises contidas no novo ciclo do Relatório Global de Monitoramento da Educação (GEM), elaborado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O relatório destaca a falência do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4 (ODS 4), que visa garantir o acesso equitativo e a qualidade da educação.
O documento aponta que, com menos de seis anos até o prazo final, nenhum indicador educacional está apresentando um progresso que se alinhe com as metas acordadas globalmente. O fato de o número de crianças fora da escola ter estagnado desde 2015, juntamente com uma queda significativa na proficiência em leitura, afeta até mesmo países de renda média e alta, evidenciando um problema estrutural que se arrasta há anos, muito antes da pandemia de Covid-19.
Segundo o relatório, a crise educacional é de caráter global, afetando tanto sistemas públicos quanto privados, abrangendo áreas urbanas e rurais e incluindo diferentes níveis socioeconômicos. “A pandemia foi apenas uma fração do impacto observado”, reconhece o documento, ressaltando que as falhas nos sistemas educacionais já eram evidentes antes da crise sanitária.
Nova Estratégia da Unesco para o Monitoramento Educacional
Em resposta a esse cenário desolador, a Unesco decidiu reformular sua estratégia de monitoramento, abandonando a lógica de metas globais que se mostraram inalcançáveis. A nova abordagem agora considera o progresso histórico de cada país e o cumprimento de objetivos nacionais, que são mais viáveis, especialmente diante das desigualdades e fragilidades institucionais que persistem em diversas regiões.
A próxima edição do relatório, programada para o ciclo de 2026 a 2028, promete aprofundar a investigação das causas da estagnação educacional, por meio de estudos de caso de diferentes partes do mundo. O foco será identificar padrões de avanço e retrocesso, principalmente em contextos afetados por instabilidade política e crises humanitárias prolongadas.
Impactos dos Conflitos e Desigualdades Invisíveis
A análise revela que países em conflito frequentemente enfrentam interrupções prolongadas no acesso à educação, dificuldades no financiamento público e taxas elevadas de evasão escolar. O relatório ressaltar que, nessas situações, estabelecer vínculos claros entre causas e efeitos é um desafio, o que compromete tanto a formulação de políticas públicas quanto a responsabilidade legal dos governantes.
Outro aspecto preocupante destacado é a escassez de dados disponíveis para mensurar as desigualdades educacionais. Crianças com deficiência, por exemplo, estão sub-representadas nas estatísticas, uma vez que muitos países têm apenas dados recentes limitados, impossibilitando a análise de tendências a longo prazo. Além disso, as disparidades entre áreas urbanas e rurais são frequentemente afetadas por falhas metodológicas em pesquisas domiciliares, resultando em leituras distorcidas sobre os avanços educacionais.
Desigualdade de Gênero e Direito à Educação
A desigualdade de gênero continua sendo um tópico central nas análises educacionais. Contudo, o relatório também aponta um fenômeno emergente: a diminuição dos índices de educação masculina em algumas regiões, como no Caribe, onde a taxa de conclusão do ensino secundário entre meninos é alarmantemente baixa, mudando padrões históricos.
A nova abordagem da Unesco reconhece a paridade de gênero não apenas como uma questão que afeta as meninas, mas também como uma problemática que pode impactar os meninos, dependendo do contexto regional. “A desigualdade de gênero não é estática nem unidirecional”, enfatiza o documento.
Em relação ao direito à educação, o relatório destaca a importância dos mecanismos de governança e dos perfis PEER, que avaliam a existência e a eficácia das leis que promovem a redistribuição de recursos educacionais. A análise se concentra na capacidade dos Estados de prevenir a evasão escolar, intervir com grupos vulneráveis e proporcionar alternativas para aqueles que abandonaram a escola.
O panorama regional intensifica a gravidade da situação. Os Estados Árabes exibem as menores taxas de participação no ensino pré-primário global, enquanto a África enfrenta uma crise severa relacionada a matrículas fora da idade correta e repetência escolar, fatores que ampliam a exclusão educacional ao longo da vida.
O novo ciclo de relatórios é descrito pela Unesco como um “acerto de contas final” antes de 2030. Ao reconhecer o fracasso da agenda original, a entidade internacional está se preparando para redefinir prioridades globais na educação em um contexto caracterizado por desigualdade, conflitos e limitações estruturais que persistem ao longo do tempo.
