Impactos e Desafios do Setor Turístico
O mundo, mais acessível do que nunca, ainda é um privilégio de uma pequena fração da população – entre 6% e 9%. Essa minoria, dotada de recursos financeiros e sociais, desfruta de férias em destinos variados, muitas vezes várias vezes ao ano. Em 2025, o turismo internacional alcançou números nunca vistos, com um recorde de 1,5 bilhão de viagens e uma injeção de quase US$ 12 trilhões na economia global, representando mais de 10% do PIB mundial. Essa cifra ultrapassa em US$ 1 trilhão as previsões para 2024 e é aproximadamente US$ 1,5 trilhão superior ao recorde anterior, registrado em 2019.
Entretanto, atrás desse crescimento estrondoso, existe um lado obscuro: o impacto ambiental do turismo internacional. De acordo com a revista Nature, as emissões de gases de efeito estufa geradas pelo setor aumentam a uma taxa alarmante de 3,5% ao ano, mais do que o dobro do crescimento da economia global. O turismo, que se promove como uma “indústria livre de fumaça”, é, na verdade, um dos principais poluidores do planeta, evidenciando uma contradição gritante entre suas promessas de sustentabilidade e a realidade.
O Paradoxo da Sustentabilidade
Após a paralisação forçada pela pandemia, o setor voltou a operar com vigor, mas as promessas de um turismo mais sustentável e equitativo se esvaneceram. As aspirações de reconstruir a indústria sobre fundamentos que respeitassem as comunidades locais e o meio ambiente foram deixadas de lado. A autocrítica da ONU sobre a necessidade de transformar o turismo em algo mais acessível e menos prejudicial não se traduziu em ações concretas. Em vez disso, as políticas regulatórias parecem seguir o caminho oposto, perpetuando a concentração de lucros e a exploração de recursos.
Essa dinâmica é alimentada por uma lógica que prioriza o lucro sobre a equidade e a sustentabilidade. Como resultado, os benefícios econômicos trazidos pelo turismo são distribuídos de forma desigual. Um estudo revela que, de cada US$ 100 gastos por turistas em países em desenvolvimento, apenas cerca de US$ 5 permanecem nas economias locais. Essa realidade leva a disparidades crescentes, onde os aumentos de preços em áreas saturadas pelo turismo afetam o acesso das comunidades locais a recursos essenciais, como moradia e alimentos.
Consequências Sociais e Ambientais
O impacto negativo do turismo não é apenas econômico. Os conflitos pelo uso da água em regiões áridas, onde campos de golfe são irrigados enquanto a população local enfrenta escassez, exemplificam as tensões geradas por essa indústria. A transformação do turismo requer decisões políticas que priorizem o bem comum e a justiça social, respeitando o ambiente e os recursos compartilhados. Contudo, a expectativa de que os turistas assumam essa responsabilidade é ilusória, em um mundo onde viajar é visto como um direito. Essa visão ignora a realidade de que a mobilidade recreativa é, na prática, um privilégio de poucos, que frequentemente ignora o impacto ambiental de suas escolhas.
Assim, o dilema do turismo contemporâneo se torna evidente: enquanto a indústria continua a crescer, a necessidade de um modelo mais sustentável e igualitário se torna cada vez mais urgente. As promessas de um turismo que respeite o meio ambiente e as comunidades locais permanecem, por ora, como meras aspirações que precisam ser concretizadas em ações. A história nos ensina que, sem uma mudança de paradigma, as consequências dessa expansão desenfreada podem ser devastadoras.
