Inovações em Inteligência Artificial no Varejo
A adoção da Inteligência Artificial (IA) deixou de ser um privilégio das grandes corporações para se tornar uma ferramenta acessível a pequenos e médios negócios. No setor do comércio, startups gaúchas têm se destacado ao utilizar essa tecnologia para auxiliar empreendedores a tomarem decisões mais assertivas e a otimizarem seus processos. Com o mercado cada vez mais voltado para o digital e orientado por dados, soluções inovadoras ganham força, como é o caso da AlterVision e da Mark, que atuam em áreas complementares.
A AlterVision, fundada em 2020 por Julio Milani de Lucena e Matheus Budelon, surgiu em um momento propício. Julio, formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), teve a oportunidade de estudar na França, onde conheceu a fundo a pesquisa em visão computacional e IA. O conhecimento adquirido despertou a ideia de aplicar essas tecnologias no Brasil, visando oferecer um diferencial competitivo para o varejo nacional.
“Na França, as pesquisas em visão computacional eram muito avançadas. Utilizar IA para entender imagens de vídeo era algo que não existia no nosso mercado”, lembra Julio. O insight gerou uma necessidade percebida por eles: a falta de informações sobre o que acontece dentro das lojas físicas, que contrastava com a abundância de dados disponíveis no e-commerce.
A Importância da Coleta de Dados no Varejo
Enquanto o varejo online possibilita coletar e analisar métricas como a taxa de abandono de carrinho e o número de sessões, as lojas físicas enfrentam um desafio maior nesse aspecto. A proposta da AlterVision é minimizar essa assimetria. Integrando-se às câmeras de segurança já existentes nas lojas, a startup coleta dados sobre fluxo de pessoas, tempo de permanência e taxa de conversão, transformando essas informações em indicadores valiosos para o empreendedor.
O desafio inicial não foi fácil. Criar uma solução voltada para o setor durante a pandemia apresentou a necessidade de um impacto imediato. “Tentávamos vender nosso sistema para lojistas que estavam com suas lojas fechadas. Porém, esse obstáculo nos levou a desenvolver um produto robusto e eficaz”, destaca Julio. O resultado foi uma solução que conseguiu, de fato, melhorar o desempenho das vendas.
Com a reabertura do comércio em 2021, a startup viu um crescimento acelerado. Hoje, a AlterVision atende desde pequenos negócios familiares até grandes redes, abrangendo 14 países na América Latina, em setores onde a experiência presencial ainda desempenha um papel crucial, como moda e materiais de construção.
“Para os pequenos lojistas, o maior benefício é entender onde estão os gargalos da operação”, afirma Julio, ressaltando que comparar dados de desempenho permite que o empreendedor saiba se o problema está na falta de clientes ou na conversão das visitas em vendas.
Integração e Automação: O Papel da Mark
Outro destaque no cenário das startups é a Mark, liderada por Rômulo Mark. A proposta da Mark complementa a da AlterVision ao focar na organização de processos internos e na integração de canais físicos e digitais. “Nós organizamos, analisamos e integramos os dados que recebemos da AlterVision ao nosso sistema”, comenta Rômulo.
Nos últimos três anos, a Mark passou por uma transformação significativa, evoluindo de uma proposta inicial para um modelo de plataforma de comércio omnichannel. “Hoje, usamos tecnologia e automação para simplificar tarefas burocráticas, como gestão de notas fiscais e controle de estoque, permitindo que os empreendedores concentrem esforços em vendas e marketing”, explica Rômulo.
Um dos diferenciais da Mark é a utilização de IA para otimizar o atendimento, permitindo que clientes sejam atendidos rapidamente por meio de integração com o WhatsApp, minimizando assim a perda de vendas por atrasos nas respostas.
Desafios e Oportunidades para Empreendedores
À medida que as startups gaúchas de IA crescem, surgem também desafios para pequenos e médios negócios no que diz respeito à digitalização. Lucas Starmac, analista de projetos de inovação do Sebrae-RS, observa que a democratização dessas tecnologias está gerando competitividade e eficiência, mas ainda há um longo caminho a percorrer. “A IA é o grande hype do momento, mas a digitalização já acontece desde 2010. O Brasil ainda está distante de um patamar ideal em termos de maturidade digital”, afirma.
Além disso, a segurança de dados é uma preocupação crescente. É essencial que empreendedores estejam cientes da legislação e evitem fornecer informações sensíveis ao utilizar ferramentas de IA. “As IAs estão evoluindo, mas é fundamental entender como os dados são utilizados para não comprometer a privacidade”, alerta Lucas.
O futuro das startups gaúchas parece promissor, trazendo consigo a esperança de que cada vez mais pequenos e médios negócios consigam se beneficiar das inovações em Inteligência Artificial, transformando o cenário do varejo e promovendo um crescimento sustentável.
