Human Rights Watch e as Falhas na Segurança Pública
MANAUS – Um novo estudo da Human Rights Watch (HRW) revela que o Brasil precisa urgentemente de investigações independentes e reformas na polícia, a fim de melhorar a eficácia no combate ao crime organizado e sua infiltração nas instituições públicas. Essa conclusão é parte do Relatório Mundial 2026, divulgado nesta quarta-feira (4). De acordo com a pesquisa, a abordagem atual de segurança pública, que se baseia em ações letais da força policial, tem se mostrado ineficaz.
O relatório, que conta com 529 páginas, analisa a situação de segurança em mais de 100 países, destacando as preocupações globais acerca da violência e do autoritarismo. Philippe Bolopion, diretor executivo da HRW, afirma que é um desafio geracional quebrar a onda autoritária que avança mundialmente. Em um contexto onde os direitos humanos estão sob constante ameaça, Bolopion conclama democracias e organizações da sociedade civil a se unirem em defesa das liberdades fundamentais.
Violência e Suas Consequências no Brasil
No capítulo que aborda o Brasil, a violência é apontada como a principal preocupação da população, dominando, assim, a pauta das próximas eleições para presidente, governadores e legisladores que ocorrerão em outubro. César Muñoz, diretor da HRW no Brasil, destaca que as estratégias de segurança baseadas no uso desenfreado da força letal têm falhado repetidamente, resultando em mais insegurança nas cidades.
“Os candidatos devem apresentar propostas que não apenas protejam os direitos das pessoas, ameaçados pelo crime organizado, mas que também levem em consideração a postura da polícia em comunidades de baixa renda, majoritariamente habitadas por negros”, ressalta Muñoz.
O relatório revela dados alarmantes: entre janeiro e novembro de 2025, a polícia brasileira foi responsável pela morte de 5.920 pessoas. Os dados indicam que negros têm três vezes e meia mais chances de se tornarem vítimas em comparação a brancos. Muitas dessas mortes, embora alegadas como legítima defesa, são classificadas como execuções extrajudiciais. A combinação de abusos policiais e corrupção dentro das forças de segurança contribui para a desconfiança da população e a redução da disposição em denunciar crimes.
Riscos para Policiais e Falhas nas Investigações
A HRW também aponta que as táticas de segurança, que frequentemente resultam em tiroteios, não apenas colocam a população em risco, mas também os próprios policiais. Dados oficiais mostram que, no mesmo período, 171 policiais foram mortos e 119 cometeram suicídio, refletindo a pressão e a falta de apoio à saúde mental enfrentadas pela categoria.
Outro ponto crítico destacado no relatório diz respeito às investigações sobre mortes causadas pela polícia, que frequentemente apresentam falhas graves. Durante a operação mais letal da história do Rio de Janeiro, em 28 de outubro de 2025, a polícia não tomou medidas investigativas adequadas para apurar a morte de 122 indivíduos, incluindo cinco policiais.
Recomendações para As Eleições e o Futuro da Segurança Pública
O estudo ainda menciona que o Rio de Janeiro é um dos sete estados, junto com o Distrito Federal, onde a perícia oficial está subordinada à polícia civil, o que compromete a independência e a eficácia dos peritos em casos de suspeitas de abusos. Além disso, o Supremo Tribunal Federal determinou que o Ministério Público deve liderar investigações sobre crimes dolosos contra a vida cometidos pela polícia, instruindo promotores a seguir protocolos internacionais adequados.
Por fim, a Human Rights Watch conclui que os candidatos nas eleições deste ano devem apresentar propostas de segurança e justiça que respeitem os direitos humanos e se baseiem em evidências científicas. É fundamental que haja uma melhor coordenação entre órgãos federais e estaduais, além de um foco no combate ao tráfico de armas, lavagem de dinheiro e às fontes de financiamento das organizações criminosas.
