A Releitura Moderna de Dona Beja
Quatro décadas atrás, tive a oportunidade de cobrir a novela Dona Beja como repórter para uma revista de televisão semanal no Rio de Janeiro. Para isso, assistia diariamente aos episódios, além de visitar as locações de filmagem. As gravações dos interiores aconteciam nos estúdios da TV Manchete, situados no subúrbio carioca. Sob o calor intenso da cidade, os atores enfrentavam o desafio de usar figurinos e perucas pesados da época. Diante das dificuldades climáticas e dos trajes, o diretor Herval Rossano, já falecido, mantinha uma abordagem rígida com o elenco e a equipe técnica. Lembro que, na época, como uma jovem jornalista recém-formada, eu também temia seu olhar durante as gravações. Hoje percebo que essa firmeza era fundamental para garantir o bom andamento de uma produção tão complexa como uma novela de época. Sob a direção de Herval, Dona Beja se destacou, alcançando índices de audiência significativos, desafiando a hegemonia da TV Globo no mercado de teledramaturgia.
Todo o trabalho meticuloso e a dedicação de elenco e equipe não foram em vão. A Beja da primeira versão, magistralmente interpretada por Maitê Proença, trouxe uma abordagem inovadora e ousada, apresentando histórias e cenas de sexo que, embora sutis, eram consideradas revolucionárias para o padrão da época. O resultado foi uma explosão de audiência.
Recentemente, a HBO Max lançou cinco episódios de uma versão contemporânea de Dona Beja, com a icônica personagem de Araxá (MG) do século 19 retornando ao público. Esta nova adaptação introduz personagens históricos, como Dom Pedro I, e aborda temas como racismo, imperialismo e escravidão, além de discutir questões atuais, como transexualidade e emancipação feminina. A escolha de Grazi Massafera para o papel central reflete a beleza e a força da personagem original, interpretada por Maitê Proença.
No papel de Ana Jacinta, Grazi Massafera mais uma vez comprova seu talento, fazendo com que o público esqueça que ela é uma ex-participante de um reality show. O grande amor de Beja, Antonio, que na versão original foi interpretado por Gracindo Júnior em 1986, agora é vivido por David Júnior, um ator negro. Essa escolha é emblemática da nova versão, que busca integrar atores negros em papéis em um contexto que, antes, era dominado por personagens brancos, especialmente considerando a temática da escravidão. A cenografia e a fotografia da nova produção destacam-se pela beleza e atenção aos detalhes.
A adaptação para o streaming é baseada no livro ‘A Feiticeira do Araxá’, de Thomas Leonardo (1957), e conta com um total de 40 capítulos, com cinco episódios lançados por semana. O elenco inclui nomes como Deborah Evelyn, Thalma de Freitas, Bianca Bin, Bukassa Kabengele, André Luiz Miranda, Indira Nascimento, Pedro Fasanaro e Isabela Garcia, sob a direção geral de Hugo de Sousa.
Uma Nova Beja para Novos Tempos
A versão dos anos 2000 apresenta uma Beja que exibe uma beleza mais fatal, contrastando com a imagem angelical da Beja dos anos 80. Grazi Massafera, em cenas de nudez frontal, reflete a contemporaneidade da sexualidade nas artes e traz uma interpretação que se distancia da suavidade da atuação de Maitê Proença.
Nos primeiros capítulos exibidos pela HBO Max, é evidente que o roteiro da versão de 1986 passa por modificações em momentos-chave. Por exemplo, a cena em que Beja entrega sua virgindade a um padre para evitar que sua primeira experiência seja com o nobre que a raptou foi alterada; na nova versão, ocorre à beira de um rio, com mais liberdade de expressão.
Uma mudança inclusiva promovida pelos adaptadores Daniel Berlinsky e António Barreira é a diversidade de gênero: a antiga escrava Severina, que acompanhava Beja, agora é retratada como uma pessoa transgênero.
Os cinco primeiros episódios de Dona Beja, transmitidos na HBO Max, oferecem um olhar mais contemporâneo, aberto à diversidade e à liberdade criativa em relação ao texto original. Embora essa abordagem mais moderna possa não agradar a todos os fãs da trama original, certamente tem o potencial de conquistar um novo público que busca representatividade e novas narrativas.
