Análise Crítica Sobre Patrimônio Turístico
MANAUS (AM) – O professor de História Cleomar Lima fez uma contundente análise sobre as declarações do prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), durante uma sessão na Câmara Municipal (CMM) no último dia 9. Almeida afirmou que o Mirante Lúcia Almeida seria o primeiro prédio público focado no turismo na capital desde a construção do Teatro Amazonas, realizada durante a gestão de Eduardo Gonçalves Ribeiro, em 1896. Para Cleomar, esta afirmação não se sustenta, considerando as complexidades históricas e urbanísticas da cidade.
O historiador criticou a visão simplista do prefeito ao desconsiderar a pluralidade de equipamentos públicos que surgiram ao longo do século XX e as diferenças contextuais que marcaram a construção do Mirante em relação ao Teatro Amazonas. “Comparar essas obras é desmerecer os processos formativos e a evolução urbana que Manaus vivenciou”, enfatizou Lima, ressaltando que o Teatro, por exemplo, foi erguido em um período em que a cidade estava em plena transformação e modernização.
Em seu discurso, David Almeida destacou que o Mirante Lúcia Almeida, inaugurado no dia 4 de abril de 2024, representa um marco na construção de espaços públicos voltados ao turismo. Ele enfatizou que não pretendia estabelecer uma comparação direta, mas mencionou a importância do Teatro Amazonas como um ícone cultural. “Eduardo Ribeiro construiu o maior cartão-postal do Amazonas, que é o Teatro Amazonas. E o Mirante, por sua vez, é um fato em nossa história atual”, argumentou Almeida.
O prefeito também fez menção a outras obras recentes no Centro Histórico, afirmando que o Pier Manaus 355, por exemplo, foi o primeiro porto turístico construído na região em mais de um século. “Estamos aqui para modernizar e transformar Manaus”, finalizou, sugerindo um olhar progressista sobre o desenvolvimento urbano.
A Declaração sob um Olhar Crítico
Cleomar Lima acredita que a afirmação do prefeito deve ser analisada dentro de um contexto político e eleitoral, especialmente em um ano marcado por movimentações e promessas não cumpridas. Para o historiador, é necessário desmistificar a tentativa de relação simbólica entre as duas obras em meio a um cenário de desafios urbanos, como a falta de saneamento básico e problemas nas vias da cidade.
Ele aponta que, ao final do século XIX, Manaus ainda enfrentava carências básicas de infraestrutura, apesar da prosperidade que a borracha proporcionou. “A cidade era marcada pela precariedade; Eduardo Ribeiro encontrou uma Manaus em condições difíceis, mas conseguiu erigir uma obra grandiosa”, declarou Lima.
Atualmente, segundo o historiador, a administração de David Almeida assume uma cidade já estruturada, com um patrimônio histórico consolidado. O Mirante Lúcia Almeida, na visão de Cleomar, não se compara ao icônico Teatro Amazonas, pois opera sob uma lógica voltada para o consumo e o lazer noturno, parecendo mais um espaço de comércio do que um equipamento cultural. “É um espaço bonito, mas que se assemelha a um shopping voltado para a classe média”, observou.
Lima também destacou marcos importantes do turismo em Manaus, que muitas vezes são esquecidos no debate público, como as intervenções da Zona Franca de Manaus e outras obras realizadas no Centro. Para ele, o Teatro Amazonas permanece como um símbolo da cultura, enquanto o Mirante desempenha uma função urbana diferente. “São projetos válidos, mas de naturezas distintas e, especialmente em um ano político, não dá para traçar comparações”, concluiu.
O Legado do Teatro Amazonas
Inaugurado em 31 de dezembro de 1896, o Teatro Amazonas é um dos mais importantes teatros de ópera fora da Europa, simbolizando a riqueza cultural da cidade. Durante a gestão de Eduardo Ribeiro, a obra se tornou um dos legados mais significativos de sua administração focada na modernização do Estado durante o auge do ciclo da borracha.
Reconhecido como patrimônio cultural brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o Teatro Amazonas se destaca por sua arquitetura singular e pela importância na cena cultural, sediando uma variedade de espetáculos de renome mundial e projetando Manaus no cenário internacional.
Para Cleomar, a diferença entre as duas obras não é meramente estética, mas envolve aspectos simbólicos e históricos profundos. “O teatro representa a cultura e grandes eventos do mundo; o mirante, embora válido, não possui a mesma relevância histórica”, finalizou.
