Baixa Interlocução do Amazonas com a Presidência
MANAUS (AM) – Um estudo da organização Fiquem Sabendo revelou que o contato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com políticos do Amazonas representa apenas 0,11% da agenda oficial da Presidência da República entre 2023 e 2025. Ao todo, foram analisados 4.488 registros da agenda do chefe do Executivo federal, e apenas cinco compromissos contaram com a presença de autoridades amazonenses. Essa estatística mostra que o Estado permanece em uma posição secundária em relação à interlocução direta com o Palácio do Planalto, especialmente quando comparado a outras regiões do Brasil e até mesmo a outras partes da Amazônia Legal.
A análise foi feita por meio da ferramenta Agenda Transparente, que organiza e cruza dados oficiais da Presidência. O levantamento focou apenas em compromissos que tiveram nomes explicitamente registrados, correspondendo a 54% do total das agendas divulgadas no período.
Participação Residual dos Políticos Amazonenses
Os únicos nomes do Amazonas mencionados na agenda presidencial foram dos senadores Omar Aziz (PSD), com dois compromissos, e Eduardo Braga (MDB), que teve um registro. Além deles, o prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), e o prefeito eleito de São Gabriel da Cachoeira, Egmar Curubinha (PT), foram citados uma vez cada. O relatório também destaca a presença de Luiz Claudio Moreira Lessa, presidente do Banco da Amazônia (Basa), que figurou em quatro compromissos, sendo a única autoridade com frequência relevante na pauta amazônica do setor corporativo e institucional.
Quando se analisa apenas os compromissos que tiveram participantes identificados, que somam 2.443 registros, a representatividade do Amazonas é de cerca de 0,20%. Apesar disso, o Estado não aparece entre os 20 principais nomes de parlamentares e governadores com maior acesso direto ao presidente da República.
Comparativo com Outros Estados da Amazônia Legal
O levantamento mostra que outros Estados da Amazônia Legal têm uma influência muito maior na agenda presidencial. O Pará, por exemplo, destaca-se como o principal eixo regional, beneficiado pela presença de dois ministros em cargos de destaque e pela atuação do governador Helder Barbalho (MDB), que conta com nove compromissos registrados. Já o Amapá se destaca pela articulação legislativa, com o senador Randolfe Rodrigues (PT) liderando com 35 encontros presenciais e compromissos remotos com o presidente. O Acre, por sua vez, vê a atuação da ministra Marina Silva (Rede) se refletir em 43 compromissos relacionados à pauta ambiental.
Outros Estados, como Mato Grosso e Maranhão, também se mostram influentes devido a ministérios estratégicos que ocupam nas áreas de agricultura, comunicações e esporte. O relatório enfatiza que, enquanto o Amazonas tem apenas algumas lideranças pontuais e registros esporádicos, outros Estados concentram cargos ministeriais e uma articulação mais frequente com a Presidência da República.
Crítica à Falta de Articulação Político-Institucional
O sociólogo Luiz Antonio Nascimento, doutor em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), aponta a baixa presença do Amazonas na agenda presidencial como reflexo da atuação das lideranças políticas do Estado. “Quando um político agenda um encontro com o presidente, ele não está lá apenas como indivíduo, mas como representante dos eleitores e deve levar as demandas da sociedade”, declarou.
Segundo Nascimento, a falta de agendas frequentes com o Palácio do Planalto revela uma falha na representação política. “O fato de os parlamentares do Amazonas não buscarem essas audiências demonstra um descaso pelas necessidades populares”, enfatizou, citando áreas críticas como saúde e educação. “É notório que a saúde no Amazonas enfrenta sérias dificuldades e que a educação é classificada entre as piores do Brasil. Temos uma série de demandas não atendidas”, afirmou o especialista.
Ele ainda questionou a atuação de prefeitos e parlamentares do Estado, que, segundo ele, deixam a desejar em relação ao compromisso que assumiram ao pedir votos. “É constrangedor observar como os deputados de São Paulo, por exemplo, se reúnem com o presidente, enquanto nossos parlamentares se comportam como meros despachantes”, criticou Nascimento.
