Fungos ‘zumbis’: O que são e sua importância
Recentemente, imagens de uma aranha infectada por um chamado “fungo zumbi” causaram furor nas redes sociais, atraindo a atenção de usuários no Brasil e no exterior. O registro, feito na Reserva Ducke, nas proximidades de Manaus (AM), foi compartilhado por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e remete a uma narrativa que lembra o popular seriado ‘The Last of Us’, da HBO, onde fungos fictícios transformam humanos em criaturas agressivas.
Os fungos ‘zumbis’, na verdade, pertencem ao gênero Cordyceps, um grupo de organismos conhecidos por infectarem e alterarem o comportamento de seus hospedeiros. A maioria dessas espécies atua como endoparasitas em artrópodes, como aranhas, formigas e lagartas. Eles são parte da divisão Ascomycota e geralmente são encontrados em regiões tropicais, onde seus esporos são introduzidos nos corpos dos hospedeiros, levando a um processo de infecção que culmina em comportamentos alterados e, muitas vezes, na morte do organismo.
A descoberta do Cordyceps caloceroides
A descoberta que ganhou notoriedade envolve uma espécie rara chamada Cordyceps caloceroides, encontrada em uma tarântula gigante. O organismo se desenvolveu dentro do corpo da aranha da espécie Theraphosa blondii, resultando em características inusitadas após o processo de infecção. Entre as mudanças, destacam-se grandes estruturas que emergem do corpo da aranha, semelhantes às representações de ‘zumbis’ na série famosa.
Essas ramificações, que crescem após o rompimento do exoesqueleto, têm a função de liberar novos esporos no ambiente, garantindo a continuidade do ciclo do fungo. Segundo os pesquisadores, essas modificações são impressionantes e raras, especialmente quando consideradas as condições ambientais na Amazônia.
Como se deu a descoberta?
A aranha afetada foi localizada durante uma expedição científica na Reserva Ducke, que envolveu uma colaboração entre cientistas brasileiros e dinamarqueses. O biólogo João Araújo, da Universidade de Copenhague (UCPH), liderou o trabalho, e foi durante essa pesquisa que a estudante Lara Fritzche encontrou a tarântula infectada. A equipe também contou com a participação do pesquisador Elisandro Ricardo Dreschler-Santos, da UFSC, que comentou sobre a importância do achado.
Em um vídeo, Dreschler detalhou que a tarântula foi infectada por um fungo que produz uma estrutura alaranjada no final dos filamentos, onde os esporos são gerados. Ele ainda mencionou que, após a infecção, a aranha se enterra no solo, o que facilita a dispersão dos esporos.
Os riscos à saúde humana
Apesar da associação com a ficção, o fungo zumbi não representa risco para os seres humanos. Ao contrário do que se vê na série ‘The Last of Us’, entrar em contato com os esporos do Cordyceps não transforma pessoas em criaturas agressivas. De acordo com Dreschler, esses fungos são altamente especializados em infectar apenas insetos e aracnídeos, dependentes desse ciclo para sua sobrevivência.
Em entrevista, ele ressaltou que estamos constantemente expostos a esporos de diferentes fungos e que estes, na maioria das vezes, não causam problemas de saúde. Com milhões de anos de interação, fungos e hospedeiros desenvolveram uma relação complexa, essencial para a manutenção dos ecossistemas.
O contexto mundial dos fungos zumbis
O fenômeno dos fungos parasitas não é exclusivo da Amazônia. Um dos mais conhecidos exemplos é o Ophiocordyceps unilateralis, que infecta formigas, levando-as a comportamentos que favorecem a propagação do fungo. Ao longo dos anos, mais de 200 espécies de fungos desse gênero foram identificadas, afetando diversos grupos de insetos e até mesmo aracnídeos. Outros casos notáveis incluem o Entomophthora muscae, que altera o comportamento de moscas, e a Massospora cicadina, que tem efeitos alucinatórios sobre cigarras.
À medida que a ciência avança, novas descobertas continuam a surgir. Recentemente, um novo fungo zumbi foi identificado em Nova Friburgo (RJ), demonstrando a diversidade e complexidade dos fungos parasitas no Brasil. O Purpureocillium atlanticum, por exemplo, foi observado emergindo do corpo de aranhas na Mata Atlântica, revelando a riqueza da biodiversidade do país.
O papel dos fungos na medicina e na biodiversidade
Enquanto os fungos ‘zumbis’ como os Cordyceps não representam uma ameaça a seres humanos, eles oferecem importantes contribuições para a medicina e a indústria farmacêutica. Muitas espécies são utilizadas na medicina tradicional chinesa e têm aplicações no tratamento de diversas condições de saúde.
O Brasil, com cerca de 10% da biodiversidade global, é um verdadeiro celeiro para a pesquisa de fungos, que desempenham um papel vital em vários ecossistemas. Além disso, a descoberta e catalogação de espécies como o Cordyceps caloceroides são cruciais para o entendimento da biodiversidade e da interação entre organismos.
