Documentos Suspeitos e Investigação em Andamento
MANAUS (AM) – O prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), enviou ao Tribunal de Contas do Amazonas (TCE-AM) recibos emitidos pela Revoar Turismo, uma empresa que a Polícia Civil do Amazonas (PC-AM) classifica como uma “empresa fantasma”. Os documentos foram apresentados pela Secretaria Municipal da Casa Civil como parte da defesa relacionada a uma viagem de David e da primeira-dama, Izabelle Fontenelle, ao Caribe em fevereiro de 2025.
Essas informações estão contidas no processo TCE nº 11.115/2025, que foi formalmente enviado pela administração municipal ao Tribunal de Contas. A equipe investigativa da REVISTA CENARIUM obteve acesso completo ao documento de defesa, que possui 11 páginas e foi datado em 5 de maio de 2025, com a assinatura do prefeito.
Os recibos e bilhetes apresentados são da A.K. Agência de Viagens e Operadora de Turismo LTDA, registrada sob o CNPJ 08.901.922/0001-81. Essa empresa foi citada no Relatório de Investigação da Operação Erga Omnes, conduzida pelo 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP), como parte de uma estrutura criminosa voltada para o narcotráfico e ocultação de recursos ilícitos.
Defesa Apresentada e Controvérsias
De acordo com os autos administrativos, a documentação apresentada à Corte de Contas tinha como objetivo comprovar que a viagem a Saint Martin, realizada em fevereiro de 2025, foi paga com recursos privados. O ofício 108/2025 – GP foi protocolado pela Casa Civil e pela Procuradoria-Geral do Município (PGM), integrando a defesa formal do prefeito, que argumenta ter comprovado o pagamento dos bilhetes aéreos.
No entanto, os cartões de embarque anexados ao processo apresentam uma marca amarela com a expressão “Verificação Pendente”, o que sugere que a reserva não foi completamente processada ou que o pagamento ainda está em validação. Essa situação levanta dúvidas sobre a validade dos recibos apresentados.
Se os localizadores mencionados, como 1YXQG9 e BGJXLJ, forem confirmados, isso pode impactar a alegação de que a Revoar Turismo “não emite passagens”, pelo menos neste caso específico. Contudo, a investigação da polícia mantém outros indícios que reforçam a suspeita, como a falta de uma sede física da empresa e laços financeiros identificados pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Caracterização como Empresa Fantasma
No relatório policial ligado ao Boletim de Ocorrência (BO) 00334853/2025, a Revoar Turismo é descrita como “uma verdadeira empresa fantasma”. A PC-AM indica que a companhia não possui sede ativa, nem site institucional, e não apresenta presença significativa nas redes sociais voltadas ao turismo. Uma pesquisa realizada pela CENARIUM apenas encontrou um perfil na internet, que não é atualizado desde março de 2017.
A investigação conclui que a agência é utilizada para lavagem de dinheiro, servindo para movimentar ativos ilícitos e ocultar patrimônio. O relatório destaca que essa estrutura está vinculada a uma organização criminosa associada ao narcotráfico, com atuação na região do Alto Solimões, em Tabatinga, uma área notoriamente dominada pelo Comando Vermelho (CV).
Movimentações Financeiras Suspeitas
A PC-AM aponta “fortes indícios” de ligação entre a Revoar Turismo e a facção criminosa. Um dos pontos críticos do relatório é a movimentação financeira de R$ 1.351.942,00, transferida por Anabela Cardoso Freitas, Coordenadora do Gabinete Pessoal do prefeito, para o proprietário da agência, o que é classificado como um movimento financeiro injustificado.
Além disso, a polícia formalizou consultas às companhias aéreas Latam e GOL, que afirmaram não ter registros de emissões de passagens pela Revoar Turismo entre 2021 e 2025. Essa informação reforça a suspeita de que a empresa não opera comercialmente.
Os documentos protocolados pela prefeitura no TCE-AM indicam que os bilhetes apresentados são da Copa Airlines, especificando a “emissão de passagens aéreas Copa Airlines”, com valores que somam mais de R$ 30.500,00. No entanto, a Copa Airlines não respondeu aos pedidos de comentário da CENARIUM até o fechamento da matéria, limitando-se a enviar uma resposta automática.
A reportagem tentou contato com a Prefeitura de Manaus, incluindo a Secretaria Municipal de Comunicação (Semcom) e a Casa Civil, além da Procuradoria-Geral do Município (PGM) e da assessoria do prefeito. Até o momento, não houve retorno ou esclarecimentos por parte dos órgãos envolvidos.
Assim, a situação permanece indefinida, expondo uma teia de incertezas em torno da gestão pública e das implicações legais que podem surgir a partir das investigações em andamento.
