Alerta para a Violência de Gênero
MANAUS (AM) – A violência contra mulheres no Brasil continua a crescer em índices alarmantes. De acordo com o levantamento “Retrato dos Feminicídios no Brasil”, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a cada 24 horas, quatro mulheres são brutalmente assassinadas no país. Esses dados, que refletem um aumento preocupante a cada ano, destacam a necessidade urgente de ações efetivas para enfrentar esse problema.
No cenário global, a situação é ainda mais crítica. Em 2023, cerca de 140 mulheres e meninas foram mortas diariamente, conforme revelado por um estudo das Nações Unidas, em parceria com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). Ao todo, 85 mil mulheres foram assassinadas intencionalmente no último ano, com 60% desses crimes sendo cometidos por parceiros íntimos ou familiares.
Em 2025, o Brasil registrou mais de 1.568 feminicídios, marcando um aumento de quase 5% em relação ao ano anterior. Desde a criação da lei que tipifica o feminicídio, em 2015, mais de 13 mil mulheres foram vítimas desse crime, motivadas unicamente pela condição de gênero. Esses números, devastadores, clamor por uma reflexão profunda sobre a situação das mulheres no país.
Presidente Lula Propõe Ações Contra o Feminicídio
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não se esquivou de abordar a seriedade da questão em seu pronunciamento no Dia Internacional da Mulher, na última sábado (7), quando se dirigiu à nação por meio de uma cadeia nacional de rádio e televisão. Lula reconheceu que, apesar do aumento das penas para o crime de feminicídio, que pode chegar a 40 anos de prisão, as agressões e mortes de mulheres persistem.
Ele anunciou um mutirão do Ministério da Justiça com o objetivo de capturar mais de 2 mil agressores e ressaltou a importância do Pacto Nacional contra o Feminicídio, afirmando: “Violência contra a mulher não é questão privada onde ninguém mete a colher. É crime. E vamos, sim, meter a colher”. Essa declaração ressoa como um chamado à mobilização social e institucional para a erradicação do feminicídio no Brasil.
Educação e Religião: Fatores em Debate
A antropóloga e professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Iraildes Caldas, lamentou que no Dia Internacional da Mulher o foco ainda recaia sobre a execução de mulheres por razões cruéis. Para a especialista, a data deveria ser uma oportunidade para refletir sobre a vulnerabilidade das mulheres em termos de direitos humanos. Ela defende que uma educação voltada para a equidade de gênero é fundamental para mudar essa realidade.
“Não basta uma educação que adestra; é preciso uma que promova a equidade de gênero. A escola deve ser um espaço libertador, contribuindo para a formação de cidadãos conscientes”, afirmou Caldas. Ela também comentou sobre a influência da visão religiosa fundamentalista presente em algumas igrejas evangélicas, que, segundo ela, perpetua um ambiente de opressão às mulheres e de aceitação da violência.
A professora destaca que muitas mulheres se sentem sufocadas por doutrinas religiosas que impõem uma lógica de submissão e desrespeito. “Muitas mulheres não se sentem confortáveis nas igrejas, pois a religião muitas vezes ignora suas histórias e direitos. A opressão se manifesta até nas vestimentas exigidas”, refletiu. Apesar de reconhecer que a Igreja Católica tem evoluído em relação a seus erros históricos, Caldas observa que o evangelismo atual ainda enfrenta problemas significativos no trato com as mulheres.
Dados Alarmantes sobre Mulheres Evangélicas
Os dados da pesquisa “Visível e Invisível: a vitimização de mulheres no Brasil”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, corroboram as afirmações da professora. O estudo revela que 42,7% das mulheres que se identificam como evangélicas já sofreram violência doméstica. Esse número é alarmante, especialmente ao compará-lo com as estatísticas entre mulheres católicas, dentre as quais 35,1% relataram ter sido vítimas de violência por parte de parceiros ou ex-parceiros íntimos. Esses dados demonstram a urgência de uma abordagem multifacetada que considere as especificidades culturais e religiosas na luta contra a violência de gênero.
