O Sistema de Sucessão Política no Amazonas
No Amazonas, a arena política se revela como um intrincado sistema de sucessão de poder, onde clãs, famílias e figuras influentes constroem redes de influência que se estendem por décadas. Independentemente de promessas de renovação a cada ciclo eleitoral, a prática indica que esses grupos políticos permanecem como os protagonistas na dinâmica eleitoral e institucional do estado.
Essa situação não é exclusiva do Amazonas, pois em todo o Brasil, grupos políticos buscam perpetuar sua presença no poder. Seja por meio de cargos eletivos ou posições estratégicas no Executivo, Legislativo e Judiciário, a lógica que rege esses grupos é a mesma: assegurar a continuidade da influência, mesmo quando o voto direto não é capaz de garantir a vitória nas urnas.
A Herança Política como Estrategia de Sobrevivência
No contexto amazonense, essa dinâmica se torna ainda mais emblemática. A sucessão de poder raramente acontece de forma abrupta; ao contrário, é um processo que se constrói a partir de laços de confiança, favorecimento e a formação de “discípulos políticos”, que frequentemente são filhos, parentes ou aliados históricos. Mesmo quando uma figura perde espaço eleitoral, sua influência tende a permanecer nas estruturas do Estado.
Um dos casos mais emblemáticos dessa dinâmica remonta à década de 1950, quando Plínio Coelho desbanca Álvaro Maia, preparando o caminho para a ascensão de Gilberto Mestrinho, que se tornaria uma figura central na política amazonense por várias décadas. Com três mandatos como governador, uma passagem pelo Senado, e experiências como prefeito de Manaus e deputado federal em Roraima, Mestrinho se consolidou como o “boto navegador”, um verdadeiro ícone político.
Durante os anos 1980, ele foi essencial na consolidação de um grupo político que perdurou por três décadas, moldando governos, eleições e novas lideranças no estado.
Amazonino, Braga e Omar: A Linhagem do Poder no Amazonas
Entre os principais herdeiros dessa linhagem, destaca-se Amazonino Mendes, considerado o “filho político” de Gilberto Mestrinho. Amazonino exerceu mandatos de governador e prefeito de Manaus, tornando-se uma figura influente de sua geração. Ao seu redor, figuras como Eduardo Braga, atual senador pelo MDB e ex-governador, e Omar Aziz, também senador e ex-governador, continuam a manter uma forte presença no cenário político.
Braga e Aziz, ambos reconhecidos como políticos de peso no Congresso Nacional, mantêm uma interlocução ativa com o governo federal, especialmente com o presidente Lula, evidenciando a continuidade das relações entre esses clãs políticos.
O Voto do Eleitor: Incertezas e Surpresas
Por mais que esses clãs exerçam forte influência, o eleitor amazonense tem demonstrado um comportamento imprevisível, conforme evidenciado nas recentes eleições. Um exemplo disso ocorreu na eleição municipal de Manaus em 2024, quando o presidente da Assembleia Legislativa, Roberto Cidade (União Brasil), era considerado favorito, respaldado pelo governador Wilson Lima. Contudo, o resultado foi surpreendente: Cidade terminou em quarto lugar, após uma campanha considerada pouco inspiradora.
O que se viu no segundo turno foi uma disputa entre Capitão Alberto Neto (PL) e Amom Mandel (Cidadania), enquanto David Almeida (Avante), atual prefeito, consolidava sua força política, contrariando as expectativas iniciais.
David Almeida: De Apadrinhado a Líder Autônomo
David Almeida representa um exemplo significativo da ascensão política construída a partir do apadrinhamento. Inicialmente ligado ao ex-governador José Melo, Almeida assumiu a liderança interina do estado em 2017, após a cassação de Melo. Desde então, ele começou a se distanciar de figuras do seu passado político, estabelecendo um caminho independente.
Eleito prefeito de Manaus em 2020, durante a pandemia, Almeida superou nomes tradicionais, incluindo Amazonino Mendes, que enfrentava limitações devido ao risco da Covid-19. Reeleito em 2024, ele se firmou como um dos principais polos de poder do estado, atraindo figuras históricas da política e formando sua própria base de apoio.
Controvérsias e a Influência Familiar
Com o fortalecimento político também surgem as controvérsias. A presença de familiares de David Almeida em cargos públicos e a influência de sua esposa, Isabelle Fontenelle, têm gerado debates acalorados. Entretanto, essas críticas não foram suficientes para diminuir seu capital político, permitindo a ele atrair aliados de diferentes espectros políticos.
Wilson Lima: O Governador e Suas Estrategias
Outro personagem central nesse jogo é o governador Wilson Lima (União Brasil), que chegou ao cargo em 2018 como uma aposta inusitada do eleitorado. Apesar das críticas enfrentadas durante a pandemia, Lima se reeleger em 2022, conseguindo manter forte influência em mais de 90% dos municípios do Amazonas, explicando, assim, a fragilidade da oposição no estado.
Com a impossibilidade de um novo mandato, Lima se apresenta como um potencial candidato ao Senado, evidenciando sua habilidade em continuar no jogo político.
Novos Nomes e Velhas Estruturas
Enquanto isso, novos nomes, como Maria do Carmo Seffair (PL), começam a ganhar espaço. Com uma trajetória na gestão educacional e uma possível candidatura ao governo, seu nome surge como uma alternativa conservadora em um estado que, apesar de sua tendência de voto à esquerda em eleições presidenciais, prefere governantes estaduais com perfil mais conservador.
A Fragmentação da Direita e As Dinâmicas de Poder
A direita no Amazonas, no entanto, enfrenta sérias divisões internas, como exemplificado pelo coronel Menezes, que perdeu relevância após rompimentos com o ex-presidente Jair Bolsonaro, embora tenha conseguido eleger a filha como deputada estadual, refletindo a volatilidade do prestígio político sustentado por alianças frágeis.
A Lógica do Poder no Amazonas
Ao analisar o cenário político do Amazonas, nota-se que, embora os grupos mudem de nome, siglas e lideranças, a lógica do poder permanece inalterada. A política continua a se construir através de redes de influência, alianças estratégicas e sucessões cuidadosamente planejadas. A cada eleição, surgem discursos sobre renovação, mas a prática revela que o jogo continua sob controle daqueles que entendem as engrenagens invisíveis do poder.
Essa habilidade de adaptação dos clãs políticos se mantém, mesmo diante de crises e mudanças na opinião pública. O futuro das eleições de 2026 trará à tona se essa lógica será transformada ou apenas reinventada.
