Inovação no Combate às Enchentes
O verão em Campo Grande é um período crítico, marcado por chuvas intensas que frequentemente resultam em alagamentos. Somente em fevereiro de 2026, a Defesa Civil registrou mais de 300 mm de precipitação, um volume que não era visto há uma década. As imagens e vídeos de ruas e casas inundadas, além de veículos sendo arrastados pela correnteza, tornam-se comuns nas redes sociais e na mídia local.
Diante desse cenário alarmante, o Governo do Estado investe em estratégias inovadoras para mitigar os efeitos das chuvas. Através da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc) e da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul (Fundect), iniciativas estão sendo implementadas para reforçar a prevenção de desastres naturais.
HidroEX: Uma Resposta Científica às Inundações
Um dos projetos destacados é o HidroEX – Extremos Hidrológicos em Múltiplas Escalas, que teve início em 2017 na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Este sistema avançado de monitoramento e previsão de enchentes já está facilitando o gerenciamento das águas na cidade. As pesquisas, que começaram com um projeto modesto, evoluíram para uma abordagem robusta, combinando tecnologia de ponta e inteligência artificial para melhorar o planejamento urbano de Campo Grande.
O coordenador do projeto, professor Paulo de Tarso, enfatiza a importância do suporte da Fundect para a evolução do HidroEX. “Em 2017, tínhamos um projeto pequeno, que foi impulsionado pelo apoio do CNPq. Esse suporte foi crucial para o desenvolvimento de nosso trabalho,” afirma. Atualmente, a iniciativa resultou em sistemas de alerta e aplicativos específicos para as áreas mais suscetíveis a inundações.
Equipamentos e Tecnologia de Ponta
No começo, o projeto se baseou em dados coletados pela Prefeitura, focando na Bacia do Prosa. A aprovação do HidroEX pela Fundect representou um marco significante. “Com o apoio da Fundect, conseguimos adquirir equipamentos avançados,” explica Paulo de Tarso, ressaltando que a iniciativa proporcionou um impulso substancial para novas pesquisas.
A equipe passou a trabalhar com tecnologia de sensores que não entram em contato direto com a água, além de radares e câmeras que utilizam inteligência artificial. “Atualmente, temos um radar que mede o nível da água no Prosa,” detalha o coordenador, informando que esses dados são fundamentais para calibrar modelos hidrológicos e hidráulicos que ajudam a compreender o comportamento das águas na região.
Resultados Promissores e Avanços Tecnológicos
Dentre os resultados alcançados pelo HidroEX, estão o desenvolvimento de soluções inovadoras baseadas em deep learning e sistemas de alerta que possibilitam monitorar áreas propensas a inundações. “Criamos um modelo de aprendizado profundo que, a partir de vídeos gravados em qualquer ponto de um rio, consegue estimar a altura da água e, consequentemente, a vazão,” explica o professor. Esta é apenas uma das inovações que surgiram a partir do projeto.
Além disso, a equipe desenvolveu modelos hidráulicos que subsidiam o planejamento urbano, permitindo uma análise crítica das melhores práticas de uso do solo na região, com o objetivo de minimizar os impactos de cheias.
Integração e Futuras Iniciativas
Os dados obtidos pelo HidroEX possibilitaram a aprovação de um novo projeto no CNPq, que visa estabelecer sistemas de alerta mais ágeis e eficientes para inundações. “Esse novo projeto nos ajudará a avançar nas diretrizes iniciadas com o HidroEX,” afirma o coordenador, mencionando que a equipe está focando na integração de dados climáticos com modelos hidrológicos para prever áreas de alagamento mesmo antes das chuvas ocorrerem.
Outro desdobramento significativo do projeto é o fortalecimento da parceria com a Prefeitura de Campo Grande, com um convênio em fase de formalização para a manutenção de 54 pluviômetros pela cidade. Essa infraestrutura permitirá a organização dos dados em um banco qualificado, com o intuito de apoiar decisões do poder público e facilitar o planejamento urbano. “Antes de iniciar um novo loteamento ou obra, podemos simular o impacto no sistema hídrico,” explica o coordenador.
O Papel da Fundect e a Ciência em Ação
O pesquisador ressalta que o financiamento da Fundect foi determinante para a consolidação do projeto. “O apoio da Fundect foi essencial para darmos continuidade aos nossos trabalhos, mesmo com a necessidade de realizar atividades fora do país,” destaca.
O professor Cristiano Carvalho, diretor-presidente da Fundect, também enfatiza que o HidroEX é um exemplo de política pública eficiente: “Investimos em soluções concretas para problemas reais da sociedade. O apoio da Fundect possibilitou um avanço tecnológico que integra monitoramento em tempo real e inteligência artificial, resultando em benefícios diretos à qualidade de vida da população.”
Essa reportagem faz parte da série “Fundect: MS ama Ciência”, que divulga informações sobre projetos financiados e a relevância do investimento público em ciência para o desenvolvimento no estado de Mato Grosso do Sul.
