Desigualdade entre Manaus e o Interior
O estado do Amazonas enfrenta um desafio alarmante: a disparidade econômica entre a sua capital, Manaus, e os 61 municípios do interior. Esta situação, que pode ser comparada à segregação, se reflete na qualidade de vida dos habitantes, evidenciando uma clara falta de ação efetiva por parte dos governantes ao longo dos anos.
A concentração populacional em Manaus, que abrange apenas 0,70% do território estadual, é alarmante – a cidade abriga 53,4% da população do Amazonas, enquanto o restante, que representa 99,3% da área, é habitado por apenas 46,6% dos amazonenses. Essa desigualdade é única entre as 27 unidades da Federação do Brasil.
O resultado dessa configuração é um abismo no desenvolvimento socioeconômico entre a capital e a região interiorana. Em termos de Produto Interno Bruto (PIB), Manaus concentra impressionantes 75% do total estadual, deixando apenas 25% para todo o interior.
As disparidades na renda per capita são igualmente preocupantes. Enquanto os moradores de Manaus ganham cerca de R$ 63 mil por ano, os habitantes do interior recebem apenas R$ 21 mil anualmente, o que equivale a pouco mais de um salário mínimo mensal. Essa diferença também se reflete nos indicadores sociais, que estão significativamente abaixo dos níveis aceitáveis.
A Crise da Pobreza no Interior
O avanço da pobreza no interior do estado é uma realidade inaceitável, que exige uma abordagem mais contundente do que promessas vazias de construção de escolas ou unidades de saúde. O que se requer é uma nova visão, com políticas públicas articuladas e de médio a longo prazo, que reconheçam os erros do passado e busquem soluções viáveis para estes problemas históricos.
O ex-governador Amazonino Mendes (1995-2002) foi um dos poucos a reconhecer essa ferida. Ele implementou mudanças significativas nas políticas públicas, tentando minimizar a desigualdade entre a capital e o interior, que não era apenas uma escolha, mas uma obrigação moral.
A legislação vigente, como o artigo 49 do decreto-lei n° 288/67, exigia que a renúncia fiscal nos tributos federais fosse acompanhada de compensações para os cidadãos do interior. Essa estrutura legal deveria ter sido utilizada para corrigir as injustiças, mas todos os governos estaduais falharam em atender a essa necessidade, resultando em um cenário onde apenas a capital se beneficiou das políticas de desenvolvimento.
Histórico de Tentativas e Oportunidades Perdidas
José Bernardino Lindoso, que governou de 1979 a 1982, também se deparou com a situação e tentou implementar ações de compensação para o interior, mas não obteve o apoio necessário. Por outro lado, Amazonino Mendes, ao assumir o governo, e seus assessores identificaram a gravidade da desigualdade e trabalharam para repensar a abordagem do estado, visando não só a redução das disparidades sociais, mas também a recuperação econômica.
Durante um período de crises econômicas sob o governo de Fernando Henrique Cardoso, a região amazônica acabou sendo negligenciada, o que dificultou ainda mais as ações dos governantes estaduais. Mesmo assim, Amazonino conseguiu estabelecer prioridades, resultando em conquistas como a nova Lei de Incentivos Fiscais (Lei n° 2.390), que impulsionou o Polo Industrial de Manaus e atraiu investimentos.
Além disso, criou o Fundo de Fomento ao Turismo, Infraestrutura e Desenvolvimento do Estado do Amazonas, que atualmente movimenta cerca de US$ 500 milhões por ano. Projetos como a construção de um terminal de soja em Itacoatiara também contribuíram para o desenvolvimento econômico, oferecendo alternativas de escoamento para a produção agrícola.
Rumo à Igualdade e Desenvolvimento Sustentável
É urgente uma mudança na abordagem atual. A legislação relacionada ao FTI deve ser revisada para garantir que os investimentos no interior sejam respeitados e se façam necessários. A Constituição Estadual deve ser cumprida, assegurando que os investimentos se igualem à participação populacional do interior.
Outra medida essencial seria auditar os benefícios fiscais concedidos às indústrias e criar novas legislações que atraíssem diferentes setores econômicos, como petróleo e gás. Isso, em conjunto com o fortalecimento da educação e do conhecimento nas cidades do interior, é fundamental para a construção de uma nova elite intelectual e a redução das desigualdades.
A floresta Amazônica representa um ativo valioso que deve ser valorizado. O governo do estado deve negociar diretamente com o governo federal para garantir que os benefícios gerados pela floresta sejam revertidos em investimentos significativos para a população do interior, que sustenta essa riqueza.
O estado do Amazonas não pode continuar a permitir que a disparidade socioeconômica se perpetue. A dívida com o povo do interior é uma questão premente que precisa ser resolvida com urgência. A ação estratégica e efetiva do governo é fundamental para que todos os cidadãos sejam tratados com dignidade e igualdade.
