O ‘Foguetão’ e a Eleição de 1896 no Amazonas
É comum que pesquisadores atribuam a eleição para governador do Amazonas em 1896, que proclamou Fileto Pires Ferreira como chefe do Executivo estadual, exclusivamente ao episódio conhecido como o “foguetão”. Este episódio consistiu no disparo antecipado, às 10 horas da manhã — e não ao meio-dia, como era habitual —, do sinal que permitiu a abertura da reunião do Legislativo. A estratégia visava garantir que apenas deputados alinhados ao governo estivessem presentes.
Além disso, o plenário que validou a eleição foi composto por ex-deputados não reeleitos, parlamentares de mandatos anteriores e até suplentes, todos mobilizados para formar o quórum legal necessário para legitimar o pleito, mesmo sem serem membros da legislatura vigente. Esse conjunto ficou conhecido como “Congresso Foguetão”, expressão usada de modo irônico para destacar a surpresa provocada na cidade, que impediu a participação da oposição e da maioria dos deputados.
Contexto Político e Análise do Jornal ‘A Federação’
Embora essa narrativa tenha se consolidado na história política local, um editorial de primeira página do jornal “A Federação”, órgão oficial do Partido Republicano Federal do Amazonas, oferece uma análise complementar. Essa publicação governista destaca que a eleição não pode ser explicada apenas pelo “foguetão”, mas também pelo cenário político-eleitoral mais amplo da época.
Leia também: Eleições Indiretas no Amazonas: Conheça as Chapas que Disputam o Governo
Leia também: Eleições Indiretas no Amazonas: O Impacto para Roberto Cidade Após a Votação
Na sucessão do governador Eduardo Ribeiro, três partidos disputavam o comando do Estado: o Republicano Federal, o Nacional e o Democrata. O Nacional e o Democrata uniram forças para enfrentar a chapa governista, composta por Fileto Pires Ferreira para governador e José Cardoso Ramalho Júnior para vice.
Segundo o editorial, essa aliança entre Nacional e Democrata, ambos de orientação federalista-republicana, teria sido a principal causa da derrota das duas agremiações. A composição heterogênea e provisória do bloco oposicionista gerou desconfiança interna, deserções e conflitos, enfraquecendo a campanha contra o governo. “A Federação” classificou a união partidária como um “debacle”, ressaltando que a oposição carecia de um programa definido e, consequentemente, recebeu o repúdio das urnas.
Disputas e Desdobramentos na Política Regional
Antes mesmo do resultado oficial, a oposição já alegava fraudes eleitorais, um argumento recorrente nas disputas políticas da época. O editorial enfatiza que a falta de apoio federal e as tensões internas entre os grupos políticos provocaram “desgostos, desconfiança e deserções”, elementos que frequentemente comprometem a estabilidade das agremiações.
Leia também: OAB: Brasília de Olho nas Dinâmicas Políticas do Amazonas
Leia também: Candidatura de David Almeida pressiona Eduardo Braga nas eleições do Amazonas
Esse cenário, marcado por alianças estratégicas frágeis e disputas internas, remete a padrões históricos da política brasileira desde o Império e durante a Primeira República (1889-1930). Um exemplo emblemático é a política do “café com leite”, acordo de alternância de poder entre as oligarquias de Minas Gerais e São Paulo, que manteve a hegemonia desses grupos até a revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder.
Portanto, a eleição de 1896 no Amazonas não apenas se resume ao episódio do “foguetão”, mas também reflete dinâmicas políticas amplas, com alianças frágeis, disputas internas e estratégias que moldaram o cenário eleitoral e institucional do Estado.
O próximo passo na análise dessa fase será acompanhar como essas disputas influenciaram as decisões administrativas subsequentes e a consolidação do poder no Amazonas.
