Uma Nova Era nas Relações Internacionais
Recentemente, o secretário de Estado Marco Rubio destacou a importância de ter suprimentos de minerais críticos e cadeias de suprimentos diversificadas durante um discurso nos Estados Unidos. Sua declaração, marcada por um tom alarmista, sugere que a longa trégua estabelecida desde o fim da Segunda Guerra Mundial pode estar se esgotando. O cenário é de uma competição interestatal que envolve elementos estratégicos cruciais para a sobrevivência de uma potência global em um ambiente que se torna cada vez mais bélico.
A Nova Estratégia de Segurança dos Estados Unidos, apresentada sob a influência do trumpismo, surge como uma resposta a essas dinâmicas. A primeira versão, divulgada em 2017, já indicava a premência de um novo paradigma, onde o interesse nacional americano começaria a guiar a projeção de poder em um contexto adverso, especialmente com o ressurgimento da Rússia e a ascensão econômica da China.
Agora, a estratégia atual se aprofunda em detalhes, revelando uma abordagem disruptiva para conter a influência chinesa — um dos principais objetivos das nações ocidentais. Os Estados Unidos estão se voltando para sua própria região, buscando reestruturar suas forças para, futuramente, reafirmar seu papel dominante frente ao que consideram uma ameaça existencial.
Relações Complexas: EUA, Rússia e China
Ao analisarmos a nova estratégia, percebemos que ela delineia uma configuração multipolar, onde as zonas de influência se tornam cada vez mais relevantes. Curiosamente, Taiwan não é mencionada na nova diretriz, indicando que a China, embora vista como um adversário sistêmico, pode não ser considerada uma ameaça existencial imediata.
Outro ponto interessante é a reaproximação entre Rússia e Índia, com o aumento das trocas comerciais e fornecimento de combustíveis. Esta interação pode ser vista como um elemento da nova estratégia, onde a Rússia deixa de ser a referência do complexo industrial-militar americano, assumindo um papel de contenção frente ao expansionismo chinês — uma aliança que poderia equilibrar a presença chinesa na região da Ásia-Pacífico.
Além disso, a Turquia foi destacada como um “agente estabilizador” no Oriente Médio, sugerindo que os Estados Unidos pretendem concentrar suas operações militares na América Latina, delegando a outras potências aliadas funções de contenção em diferentes regiões do mundo, com o Japão assumindo este papel na Ásia.
Impactos na Europa e a Balcanização do Continente
Em relação à Europa, a estratégia americana demonstra um claro distanciamento, ao mesmo tempo em que parece fomentar movimentos de extrema-direita e supremacistas brancos. Apesar da retórica pacifista que buscaria limitar a expansão da Otan, as entrelinhas do documento sugerem um incentivo à balcanização do continente europeu, o que exigirá dos países europeus um aumento nos gastos com defesa — preferencialmente, com armamentos americanos.
Esse cenário pode indicar um futuro mais autoritário, onde a lei do mais forte prevalece. Os Estados Unidos, então, se reúnem em torno da ideia de manipular as tensões internas, reforçando seu poder hemisférico e buscando reindustrializar sua economia.
Os Desafios e Oportunidades para o Brasil
Historicamente, a Nova Estratégia de Segurança dos EUA pode ser menos prejudicial para o Brasil do que para a Europa. A militarização da América Latina não necessariamente significa que a região deixará de ser considerada pelos EUA como uma área livre de conflitos, ao contrário do que ocorre na Europa.
O Brasil, ao longo do século 20, se beneficiou da “hegemonia benevolente” dos Estados Unidos e, mesmo nos períodos de maior intervencionismo, conseguiu se posicionar como um aliado estratégico. Essa relação, que remonta a Getúlio Vargas, assegurou uma estabilidade que possibilitou um crescimento médio de 6% ao ano entre 1930 e 1980.
Atualmente, o Brasil deve buscar uma negociação que garanta a estabilidade regional, evitando conflitos, principalmente em relação à Venezuela. A habilidade do governo Lula em estabelecer um caminho estratégico pode ser crucial para manter a paz e, ao mesmo tempo, aproveitar os benefícios econômicos que podem surgir de uma nova dinâmica de parceria com os EUA, sem negligenciar a importância da China como seu principal parceiro comercial.
Rumo a um Mundo Bipolar?
Em um contexto global cada vez mais polarizado, a rivalidade entre Estados Unidos e China se intensifica. Especialistas, como Jennifer Lind, argumentam que a China pode estar mais próxima de uma superpotência do que a União Soviética esteve durante a Guerra Fria. Essa realidade aponta para um retorno à bipolaridade, onde a presença chinesa na América Latina se tornará inaceitável para Washington.
Assim, o Brasil deve permanecer cauteloso, garantindo que os conflitos globais não impactem sua região. O futuro aponta para um cenário onde as relações internacionais se tornam cada vez mais complexas, e o Brasil terá que navegar habilmente essas águas turbulentas para proteger seus interesses.
