Impactos Imediatos e Preocupações Industriais
MANAUS (AM) – A União Europeia (UE) deu um passo importante na última sexta-feira, 9, ao aprovar preliminarmente o acordo comercial com o Mercosul, que abrange países da América do Sul. Após mais de 25 anos de negociações, essa decisão sinaliza a possibilidade de transformar a região na maior zona de livre comércio do mundo. No entanto, a medida gera inquietação em setores industriais do Brasil, especialmente na Zona Franca de Manaus (ZFM).
Com a aprovação da maioria dos 27 Estados-membros da UE, o acordo está prestes a ser oficializado na próxima segunda-feira, 12, no Paraguai. Contudo, a aprovação ocorre em meio a uma forte resistência de nações como França e Irlanda. Daniel Conceição, professor de Economia no IPPUR/UFRJ e presidente do Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento (IFFD), comentou sobre a complexidade do acordo: “De maneira geral, o tratado não é automaticamente positivo ou negativo. Ele amplia as opções disponíveis, mas também introduz riscos.”
Efeitos Econômicos e Riscos Potenciais
Conforme análise de Conceição, os impactos econômicos do acordo dependerão de fatores internos, como políticas industriais e investimentos públicos. “O resultado final dependerá das escolhas estratégicas que fizermos, incluindo financiamento e proteção de setores-chave”, destacou o professor, enfatizando que, sem essas decisões, a abertura pode reforçar um padrão de exportação primária.
O professor também criticou abordagens tradicionais do comércio internacional, afirmando que a ideia de que o Brasil precisa de demanda externa para gerar emprego e renda é falha. “A demanda pública pode desempenhar um papel fundamental em sustentar emprego e capacidade produtiva”, complementou.
Sensibilidade da Zona Franca de Manaus
Em relação à Zona Franca de Manaus, Conceição alertou sobre a gradual abertura à concorrência europeia, que pode ameaçar a competitividade de setores que dependem dos incentivos fiscais e do mercado interno. “Se as importações europeias se tornarem mais acessíveis, a competitividade da ZFM pode ser comprometida, afetando diretamente empregos e a economia regional.”
Ele enfatizou que, com a possível redução dos preços de importação, a ZFM pode enfrentar um desafio significativo em segmentos como eletroeletrônicos e motocicletas. “A diminuição dos custos de produtos europeus pode impactar a competitividade da Zona Franca, resultando em perdas de emprego e na economia local”, explicou.
Desafios e Oportunidades no Acordo
As implicações do acordo não param por aí. Cassiano Trovão, professor do Departamento de Economia da UFRN, destacou que a sustentabilidade e a descarbonização, que estão inseridas no acordo, podem representar tanto desafios quanto oportunidades. “A indústria brasileira enfrenta um desafio crucial. A Zona Franca de Manaus, que se baseia fortemente em incentivos fiscais, poderá ver sua vantagem competitiva ameaçada se as tarifas de importação forem drasticamente reduzidas”, opinou.
Além disso, Trovão avaliou que o agronegócio pode se beneficiar com a eliminação ou redução de tarifas, especialmente em produtos como suco de laranja, soja e açúcar. “Diante da busca da UE por reduzir a dependência da China para minerais críticos, o Brasil poderá explorar um mercado em expansão para insumos da transição energética”, ressaltou.
A Estratégia de Inserção no Comércio Europeu
Apesar das oportunidades, o desafio será determinar se o Brasil exportará matéria-prima sem planejamento ou se conseguirá estabelecer uma relação que privilegie o desenvolvimento de cadeias de produção internas, agregando valor e gerando empregos. “As regiões do Centro-Oeste e Matopiba podem experimentar um aumento na renda e no emprego, enquanto o Sul e o Sudeste poderão enfrentar perdas de postos de trabalho, exigindo políticas de inovação e qualificação profissional”, alertou Trovão.
Riscos de Desigualdade e Assimetria
Gustavo Menon, especialista em Relações Internacionais, destacou que o acordo não é isento de riscos para o Brasil e América do Sul. “A abertura comercial pode aprofundar desigualdades em setores vulneráveis de ambos os blocos. A resistência de produtores agrícolas europeus, especialmente da França, demonstra um temor real acerca dos impactos na produção local”, afirmou.
Menon enfatizou que os benefícios do acordo dependerão da capacidade de Brasil e Mercosul de formular políticas públicas eficazes. “Se bem implementado, o acordo pode ser um vetor de crescimento e integração do Brasil às cadeias globais de valor”, concluiu.
