Ameaças de Agiotagem em Manaus
Uma servidora do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), que optou por permanecer anônima, compartilhou detalhes sobre as intimidações e ameaças de morte recorrentes que sofreu por parte de um grupo suspeito de agiotagem e extorsão, detido em Manaus na última quinta-feira (12). Relatos indicam que em diversas ocasiões, os agiotas prometeram sequestrar seu filho e até mesmo disparar contra um veículo corporativo do tribunal.
A operação, coordenada pela Polícia Civil, resultou na prisão de seis indivíduos, entre eles o proprietário de um banco que funcionava como fachada para atividades de lavagem de dinheiro. As investigações já identificaram pelo menos cinco vítimas, incluindo a própria servidora do TJAM.
Em entrevista à Rede Amazônica, a mulher revelou que os problemas começaram após contrair um empréstimo de aproximadamente R$ 5 mil em 2019. Hoje, mais de cinco anos depois, a dívida superou a marca de R$ 500 mil. Durante esse período, ela afirma ter perdido mais de R$ 1,5 milhão em transferências e entregas de dois imóveis e um veículo ao grupo.
“Golpista, estelionatária, vagabunda, pilantra… Eu nunca ouvi tantos xingamentos na minha vida”, declarou a vítima, visivelmente abalada.
Além do impacto financeiro, a servidora ressaltou que as ameaças afetaram sobremaneira sua vida familiar. Antes cercada por amigos, agora se vê isolada e emocionalmente devastada.
“Todos estão com medo. Você se sente assim, desamparada, sem nada, absolutamente nada. Meu lar está em ruínas. A relação com meus filhos, meu casamento, tudo se deteriorou por conta da dívida com os agiotas”, lamentou.
Através de áudios obtidos pela Rede Amazônica, um dos suspeitos explicitamente ameaçou sequestrar o filho da funcionária. “Pô, cara, você não tem palavra, né? Se você não tem, eu tenho. Vou sequestrar teu filho hoje. Imagina só, não esperei muito pra receber o que te emprestei”, ameaçou o criminoso.
O inquérito sinaliza que, em uma das ocasiões, a servidora foi abordada no estacionamento do TJAM e compelida a entrar em um carro com um agiota.
Em um vídeo apreendido pela polícia, um dos suspeitos mencionou um acordo feito com a vítima em relação ao pagamento de novas parcelas. “Ela disse que não pode pagar agora porque está comprometida… que começaria a pagar em fevereiro. Vamos acompanhar isso!”
Outro áudio revela ameaças diretas à servidora, com promessas de ataques aos veículos oficiais do tribunal. “Vou fazer uma escolta no tribunal. Vou te pegar e metralhar o carro do TJAM, entendeu? Vou te matar ainda hoje”, afirmou o suspeito.
Ao relatar sua decisão de denunciar a situação, a servidora expressou que atingiu seu limite e não tinha outra alternativa. Ela também disse que se arrepende de não ter resolvido a situação antes. “Eu devia a mim mesma e à minha família uma atitude. Se eu tivesse agido de forma correta lá atrás, não estaria passando por isso”, desabafou.
“Não posso viver assim. Com medo constante de ser sequestrada quando saio do trabalho, ou que meu filho seja levado quando volta da faculdade”, finalizou.
Na operação realizada pela Polícia Civil, a Justiça autorizou prisões preventivas, quebra de sigilo telefônico e mandados de busca e apreensão. Durante a ação, foram recolhidos celulares, dinheiro, computadores e armas.
O delegado Cícero Túlio, responsável pelo 1º Distrito Integrado de Polícia (DIP), informou que o grupo era composto por várias células de agiotas que focavam em servidores públicos, especialmente de tribunais e demais órgãos oficiais do Amazonas.
De acordo com as investigações, Ikaro Michel, apontado como líder do esquema, é proprietário do Banco Life, utilizado para ocultar o dinheiro obtido com suas atividades ilegais. Durante a operação, a polícia apreendeu cerca de nove veículos, além de dinheiro, celulares e uma arma escondida.
“O Ikaro teve um papel central em um dos núcleos investigados, criando um banco de fachada para dissimular os ganhos provenientes de atividades criminosas. Durante as investigações, conseguimos comprovar que o banco era uma ferramenta para escoar os valores oriundos dessas práticas”, declarou o delegado.
O TJAM emitiu uma nota informando que não se pronunciará sobre o caso. A defesa de Ikaro Michel afirmou que se manifestará apenas após ter acesso ao inquérito.
