Desafios e Oportunidades na Recuperação da BR-319
MANAUS – Com a recuperação do trecho central da BR-319 se tornando uma realidade, surge a urgência de implementar medidas que garantam a proteção do entorno da rodovia. Embora já existam alguns movimentos nesse sentido, eles ainda são insuficientes considerando os riscos associados a essa obra.
Todos os municípios que serão impactados pelo asfaltamento da rodovia precisam iniciar projetos voltados para a proteção ambiental. Algumas das iniciativas que devem ser consideradas incluem a prevenção da grilagem, o georreferenciamento das áreas e o cadastramento territorial, além da análise dos potenciais econômicos que essa nova acessibilidade pode proporcionar.
É fundamental que o Governo Federal, assim como os governos de Rondônia e do Amazonas, desempenhem papéis essenciais nessa trajetória. Esses governos detêm maiores capacidades técnicas e orçamentárias para enfrentar os desafios que surgirão. Os municípios dessas regiões, que apresentam vastas áreas com pequenas populações e orçamentos limitados, necessitam de apoio para gerenciar adequadamente as mudanças.
Um grupo de trabalho deve ser constituído com o intuito de potencializar as medidas de proteção da floresta, promover o desenvolvimento social e preservar os recursos naturais. O risco de uma explosão da grilagem no entorno da rodovia é real e, caso não haja um planejamento adequado, pode-se vivenciar o perigoso efeito espinha de peixe, onde a degradação ambiental se intensifica.
Empoderamento Local e Governança da Amazônia
A governança da Amazônia só se consolida com o empoderamento das comunidades locais. Não basta decretar a proteção da região sem a presença ativa de instituições que engajem com pessoas e recursos da localidade. Com frequência, temos a tendência de fingir que ocupamos a Amazônia, buscando protegê-la sem ações concretas, o que não contribui para a preservação real.
É imperativo que planos de governança sejam elaborados antes do início das obras. As ações precisam ser implementadas imediatamente, e não apenas após a destruição ser consumada. Associações de Municípios do Amazonas e de Rondônia também têm um papel significativo nessa questão, podendo contribuir de forma ativa para enfrentar os desafios que surgem.
Cenário de Incêndios e Biodiversidade
Em 2020, mais de 40% dos municípios localizados ao longo da BR-319 registraram focos de incêndio, conforme análise realizada pela Infoamazonia e Juliana Mori, com dados do INPE. A possibilidade de que esse cenário, que já foi minimizado, se deteriore rapidamente é bastante alta. A biodiversidade da região precisa ser adequadamente mapeada por universidades e institutos de pesquisa, com o foco conectado aos desafios nacionais.
É essencial que projetos de pesquisa e extensão se alinhem a essa proposta. A decisão de recuperar a rodovia não deve ser encarada como um malefício, mas como uma oportunidade de progresso. Se não aproveitarmos essa chance com uma abordagem sustentável, corremos o risco de seguir por um caminho de destruição.
A Importância de Barreiras Ambientais
Por fim, é vital garantir a presença de proteção e barreiras ambientais, tanto por parte das fiscalizações estaduais quanto federais. A reconstrução da BR-319 não será um processo simples. Existe um grande risco de negligência em relação aos fatores que precisam ser protegidos no entorno da rodovia. Não podemos nos deixar enganar acreditando que a simples não realização da obra resolveria todos os problemas, assim como não podemos cair na armadilha de pensar que a construção da rodovia por si só trará soluções.
O que mudará agora é a natureza da problemática: passaremos de uma política de desenvolvimento que não fazia nada, acreditando que isso era proteção, para uma situação onde a construção é inevitável, mas onde a obra em si não será suficiente. É hora de focar na governança e na proteção efetiva da Amazônia.
