Um Diferencial Crucial na Corrida Tecnológica
Desde 2021, a China vem ampliando sua capacidade de geração de energia de forma impressionante. De acordo com dados divulgados pela Administração Nacional de Energia, o país adicionou mais capacidade de geração em diferentes tecnologias do que os Estados Unidos conseguiram ao longo de sua toda história. Somente no último ano, foram adicionados 543 gigawatts. Esse crescimento inegável de energia dá à China uma vantagem significativa na corrida global pela inteligência artificial (IA).
As projeções da BloombergNEF indicam que a China deve incrementar sua capacidade em mais de 3,4 terawatts (TW) nos próximos cinco anos. Esse número é quase seis vezes maior que o aumento projetado para os EUA, o que possibilitará à segunda maior economia do mundo atender à crescente demanda energética dos data centers, fundamentais para o desenvolvimento da IA.
“O fator limitante para a implantação da IA é, fundamentalmente, a energia elétrica”, afirmou Elon Musk em uma entrevista ao CEO da BlackRock, Larry Fink, durante o Fórum Econômico Mundial em janeiro. Segundo Musk, o crescimento da eletricidade na China é impressionante e, em breve, o país pode se tornar o único capaz de simplesmente ligar os chips que produzirá.
Concorrência em Alta
A xAI, empresa de Musk, já está investindo na construção de data centers nos EUA e busca desenvolver infraestruturas espaciais, visando eliminar custos com energia. Esses empreendimentos refletem uma tendência crescente de empresas que buscam eficiência energética em um mercado cada vez mais competitivo.
O CEO da Nvidia, Jensen Huang, compartilha uma visão semelhante, ressaltando que o acesso à energia pode ser um elemento fundamental que diferencia a competitividade entre EUA e China. Durante um evento no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, Huang comparou a energia entre os dois países, afirmando que a China possui o dobro da capacidade elétrica dos EUA, o que pode ter um impacto significativo na corrida pela IA.
A Demanda por Energia Cresce
Entre 2024 e 2030, os data centers nos EUA deverão consumir cerca de 38% da nova demanda elétrica, enquanto na China esse número é estimado em apenas 6%, segundo a BloombergNEF. Até 2030, espera-se que esses centros usem aproximadamente 7% da energia total dos Estados Unidos, em comparação com apenas 2% na China.
A China, por sua vez, vem ampliando rapidamente sua capacidade de geração elétrica, impulsionada por investimentos significativos em fontes renováveis, como solar e eólica, além de carvão, nuclear e gás. Em 2023, a capacidade solar deve superar a do carvão pela primeira vez, embora as taxas de uso das renováveis ainda sejam menores quando comparadas às fontes fósseis.
Desafios nos EUA
Nos Estados Unidos, o crescimento na geração de energia tem sido mais lento, resultado de quase duas décadas de estagnação até o início dos anos 2020. As pressões da demanda por IA estão provocando uma corrida por novas usinas a gás; no entanto, a implementação desses projetos enfrenta atrasos significativos devido a regulamentações rigorosas e gargalos na cadeia de suprimentos.
A rejeição à energia renovável durante a administração de Donald Trump também contribuiu para o atraso em projetos de energia limpa. Michael Davidson, professor da Universidade da Califórnia em San Diego, criticou essa postura, afirmando que o governo está “dando um tiro no próprio pé” ao não adotar soluções mais robustas de energia renovável.
Os problemas na rede elétrica dos EUA já estão começando a impactar a indústria de IA. Em algumas localidades, como o norte da Virgínia, que se destaca como um polo de tecnologia, já foram notificados cortes de energia devido a falhas na infraestrutura elétrica. Segundo a BloombergNEF, essa discrepância entre a demanda crescente e a capacidade de oferta pode resultar em uma escassez de energia efetiva em alguns mercados até 2030.
A Vantagem Chinesa
Contrapondo-se à situação nos EUA, a China tem demonstrado eficiência na conexão à rede para novos data centers. De acordo com David Fishman, da consultoria The Lantau Group, esse aspecto não representa um problema no país. A análise do Goldman Sachs sugere que a China poderá ter, até 2030, uma capacidade excedente equivalente a mais de três vezes a demanda global de data centers, evidenciando um potencial que pode se tornar um gargalo para o crescimento dos EUA.
Conforme destacou Samantha Gross, da Brookings Institution, a disponibilidade de energia já é um fator limitante no crescimento dos desenvolvedores de IA nos Estados Unidos. “A indústria fala em ‘tempo até a energia’ porque isso é o que determina o ritmo — não é a disponibilidade de chips, é a disponibilidade de eletricidade”, completou. Embora a IA deva representar uma fração menor da demanda total de energia na China em comparação aos EUA, devido à presença de outros setores intensivos em eletricidade, o acesso à energia continua sendo um fator crítico nesta corrida tecnológica.
