Cinco Anos do Colapso do Oxigênio em Manaus
Manaus, 14 de janeiro de 2026 – A cidade de Manaus completa, nesta quarta-feira, cinco anos do colapso do fornecimento de oxigênio durante a pandemia de Covid-19. O cenário, inicialmente estimado em 33 mortes diretamente atribuídas à falta do insumo hospitalar, revela uma realidade muito mais trágica. Os dados obtidos pelo Ministério Público Federal (MPF), conforme apontou o procurador Igor Araújo, indicam que o número real de vítimas pode ser significativamente maior.
Durante uma coletiva de imprensa, Araújo mencionou que relatórios da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) mostram um déficit crônico de oxigênio que perdurou entre 28 de dezembro de 2020 e 30 de janeiro de 2021, impactando não apenas Manaus, mas também municípios vizinhos. Diante disso, é evidente que as consequências dessa crise vão além das cifras oficiais apresentadas até o momento.
Ação Civil Pública e Reparação Financeira
A coletiva também abordou a Ação Civil Pública (ACP) 1011497-89.2024.4.01.3200 que busca reparação de R$ 4 bilhões, apoio psicossocial e a responsabilização do Estado, da União e do município em decorrência da inércia do Poder Público. Araújo enfatizou que a ACP visa não apenas a compensação financeira, mas também a construção de um espaço de memória coletiva para as vítimas da tragédia.
De acordo com o procurador, as ações incluem a identificação formal dos falecidos e a promoção de homenagens, além de garantir que situações similares não voltem a ocorrer. “Os familiares das vítimas almejam mais do que qualquer compensação financeira; eles desejam o reconhecimento formal da culpa do Estado”, declarou Araújo, ressaltando que a falta de diálogo produtivo com as entidades governamentais ainda é um obstáculo.
Revelações Sobre a Crise de Oxigênio
A crise de oxigênio em Manaus foi tão intensa que, segundo Araújo, em 4 de janeiro de 2021, o Ministério da Saúde enviou uma equipe à cidade, alertando sobre a iminente catástrofe na rede pública de saúde. Apenas dez dias depois, em 14 de janeiro, aconteceu o colapso definitivo, que resultou em mortes de pacientes pela falta do insumo essencial.
Os dados anteriores, que indicavam 33 a 34 vítimas, referem-se apenas aos dias 14 e 15 de janeiro de 2021. Araújo apontou que quase 500 pessoas foram transferidas para hospitais em outras regiões, evidenciando que os números oficiais não refletem a verdadeira extensão da tragédia. “Ainda precisamos de dados completos do Estado para um cálculo mais preciso”, destacou.
Lacunas nos Dados e Responsabilidade do Poder Público
Durante a coletiva, Araújo frisou que a estimativa inicial de 33 mortes é incompleta e que, com informações da ABIN e outros levantamentos, é provável que o número real de vítimas seja muito maior, afetando também localidades no interior do Amazonas. Ele enfatizou que a identificação das vítimas depende do reconhecimento da responsabilidade por parte dos governos federal, estadual e municipal.
Além disso, o procurador esclareceu que, pela natureza da ACP, não se busca responsabilização criminal, mas sim um reconhecimento civil da responsabilidade por danos causados. “A nossa ação se concentra na reparação financeira e simbólica, e não implica em responsabilização criminal”, explicou.
Falta de Reconhecimento do Poder Público
A recusa do Poder Público em aceitar a responsabilidade pela crise tem sido um obstáculo significativo no processo de reparação das vítimas. Segundo Araújo, embora órgãos como a Advocacia Geral da União e o Ministério da Saúde tenham participado de reuniões, não houve um reconhecimento formal de sua responsabilidade na crise do oxigênio.
O antropólogo e advogado Vinícius Reis, representante da Avico, também destacou a importância do reconhecimento formal das falhas do Estado. “Sem essa admissão, qualquer forma de reparação é vazia”, alertou. Ele enfatizou que medidas simbólicas, como a criação de memoriais, só terão sentido se vierem acompanhadas de um reconhecimento claro das responsabilidades do Estado.
Transparência e Aprendizados para o Futuro
A coletiva ainda abordou o aprendizado do sistema de saúde em relação à crise provocada pela pandemia. Araújo mencionou que mais de 5 mil páginas de relatórios da ABIN foram analisadas pelo MPF, revelando a gravidade da situação e as falhas que poderiam ter sido evitadas. Ele também alertou que, apesar das lições aprendidas, problemas históricos persistem no sistema de saúde pública do Amazonas.
O debate em torno do colapso do oxigênio em Manaus não apenas expõe a tragédia de milhares de vidas perdidas, mas também acende a chama da responsabilidade coletiva e a necessidade de garantir que episódios semelhantes não voltem a ocorrer no futuro.
