Transformação Econômica da China
Em 1978, a história econômica mundial testemunhou uma das suas reviravoltas mais significativas. Apesar da falta de atenção na época, esse foi o ano em que Deng Xiaoping, o líder chinês que sucedeu Mao Tsé-Tung, implementou uma mudança radical no modelo econômico do país. A China decidiu abandonar o socialismo econômico tradicional, porém, não se lançou de cabeça no capitalismo ocidental. Ao invés disso, surgiu um conceito inovador que ficou conhecido como socialismo de mercado.
Este novo princípio era bastante claro: o Estado manteria o controle estratégico da economia, mas permitiria a coexistência de empresas privadas, investimento estrangeiro, competição e lucro. Em resumo, a fórmula consistia em uma combinação de planejamento estatal e mercado ativo.
Uma Nova Abordagem Econômica
Por décadas, a narrativa predominante no mundo sugeria que os únicos modelos econômicos viáveis eram o capitalismo e o socialismo. Deng Xiaoping desafiou essa visão, demonstrando que era possível usar o mercado como ferramenta, enquanto o Estado continuava a exercer um papel fundamental na direção econômica. Essa mudança foi monumental. Antes, a economia chinesa era marcada pela pobreza, com pouca produção, quase nenhuma exportação e baixos níveis de renda. Contudo, em apenas algumas décadas, a transformação foi impressionante.
A China emergiu como a maior potência industrial do planeta, tornando-se o maior exportador e o segundo maior consumidor de energia e matérias-primas do mundo. Mais de 800 milhões de pessoas foram retiradas da pobreza, o que é considerado uma das maiores transformações econômicas da história. Não obstante, a China nunca adotou as orientações do Consenso de Washington, que pregava uma liberalização econômica total. O controle estatal sobre setores estratégicos, como energia e finanças, foi mantido, permitindo que o mercado fosse usado para fomentar eficiência e crescimento.
Pragmatismo e Crescimento
Deng Xiaoping era conhecido por sua célebre frase: “Não importa se o gato é preto ou branco. O que importa é que ele cace ratos.” Essa expressão encapsula o pragmatismo que permeou suas decisões. Em um contexto onde muitos países se perderam em debates ideológicos sem fim, a China tomou uma abordagem diferente. O país testou e experimentou, criou zonas econômicas especiais, atraiu tecnologia estrangeira e investiu pesadamente em educação e infraestrutura.
Os resultados dessa estratégia são visíveis: em apenas 40 anos, a China evoluiu de um país empobrecido para uma superpotência econômica, alterando de maneira significativa o equilíbrio de poder global. Hoje, ela se estabelece como uma rival econômica dos Estados Unidos, uma situação que não existia no final do século 20. Essa trajetória começou com uma simples decisão em 1978: usar o mercado sem abrir mão do controle estatal. Essa talvez seja uma das grandes lições de nosso tempo.
A Comparação com o Brasil
A experiência da China oferece um interessante ponto de comparação com o Brasil. Em 1978, a renda per capita da China estava bem abaixo da brasileira. O Brasil já era um país industrializado, com setores como siderurgia e automotivo em crescimento, além de grandes empresas estatais. Por outro lado, a China era predominantemente rural e enfrentava muitos desafios econômicos. Naquele momento, o Brasil parecia estar em uma posição privilegiada, mas as décadas seguintes mostraram um descompasso nas direções tomadas pelos dois países.
A China seguiu um planejamento estratégico claro, mantendo controle sobre setores-chave, investindo em infraestrutura e focando na indústria e nas exportações. O resultado foi uma industrialização exponencial, posicionando-a como a maior produtora de aço, painéis solares e diversos outros produtos industriais.
Em contraste, o Brasil optou por uma rápida abertura comercial nos anos 1990, resultando em privatizações extensivas e um processo de desindustrialização. Atualmente, o Brasil é um forte exportador de commodities, como minério de ferro e soja, mas depende cada vez mais de produtos industriais importados.
A Lição Final
A transformação estrutural da economia brasileira se revela, portanto, como uma repressão à sua industrialização, ao passo que a China se consolidou como uma superpotência. Em 1978, a economia brasileira era maior que a chinesa; hoje, a economia da China é mais de dez vezes superior. A mensagem é clara: o mercado é essencial, mas a ascensão de uma potência não se dá simplesmente pela confiança cega no livre mercado. É fundamental ter estratégia, planejamento e uma visão de longo prazo. Esse foi o entendimento de Deng Xiaoping em 1978 e continua a ser uma lição valiosa para o mundo.
