Desafios na Educação Básica até 2030
24 de janeiro de 2026
Fred Santana – Da Cenarium
MANAUS (AM) – O futuro da educação básica global revela um quadro alarmante. Conforme apontam análises no novo ciclo do Relatório Global de Monitoramento da Educação (GEM), publicado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), a possibilidade de cumprir as metas globais estabelecidas até 2030 está cada vez mais distante. O documento destaca a falência do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4 (ODS 4), que visa garantir acesso equitativo e qualidade no ensino.
Com menos de seis anos para a data limite, todos os indicadores educacionais analisados não apresentam tendências alinhadas às metas acordadas internacionalmente. A estagnação no número de crianças fora da escola, que persiste desde 2015, e a acentuada queda na proficiência em leitura, incluindo países de renda média e alta, expõem uma crise estrutural que se arrasta desde antes da pandemia de Covid-19.
Uma Crise Educacional Global
De acordo com o relatório, a crise educacional se manifesta em uma escala global, afetando tanto sistemas públicos quanto privados, abrangendo áreas urbanas e rurais e diversas faixas de renda. “A pandemia representou apenas uma fração do impacto observado”, reconhece o documento, que denuncia falhas sistêmicas persistentes nos ambientes educacionais.
Em resposta a essa realidade, a Unesco decidiu revisar sua estratégia de monitoramento, abandonando metas globais que são vistas como inacessíveis. A nova abordagem foca na análise do progresso histórico individual de cada país e em objetivos nacionais, considerados mais viáveis diante das desigualdades e fragilidades institucionais que persistem em várias regiões.
Estagnação e Desigualdades Estruturais
A próxima edição do relatório, planejada para o ciclo 2026–2028, irá aprofundar a investigação das causas da estagnação na educação por meio de estudos de caso selecionados de diversas partes do mundo. O intuito é desvendar padrões de avanço e retrocesso, especialmente em cenários marcados por instabilidade política, conflitos armados e crises humanitárias prolongadas.
Nações afetadas por conflitos frequentemente enfrentam interrupções prolongadas no acesso à educação, dificuldades de financiamento e alta evasão escolar. O relatório enfatiza que, nestas situações, a relação entre causas e efeitos se torna mais complexa, prejudicando tanto a formulação de políticas públicas quanto sua implementação e supervisão.
Desigualdade de Dados e Gênero na Educação
Outro aspecto crítico abordado no relatório é a escassez de dados que dificultam a avaliação das desigualdades educacionais. Crianças com deficiência, por exemplo, estão sub-representadas nas estatísticas, uma vez que muitos países dispõem apenas de dados limitados, o que impede uma análise precisa de tendências a longo prazo.
A disparidade entre áreas urbanas e rurais também é prejudicada por falhas metodológicas em pesquisas domiciliares, resultando em interpretações distorcidas sobre os avanços educacionais. O relatório alerta para erros de amostragem, que comprometem a identificação real dos que são deixados para trás no sistema educacional.
Embora a desigualdade de gênero permaneça uma questão central, o relatório destaca um fenômeno emergente: a queda nas taxas de escolarização dos meninos em algumas regiões, como no Caribe, onde eles apresentam índices significativamente menores de conclusão do ensino secundário, revertendo padrões históricos.
Direito à Educação e Crises Regionais
A nova metodologia da Unesco também aborda a paridade de gênero sob uma nova perspectiva, considerando que a desigualdade não é apenas uma questão que afeta as mulheres, mas que pode impactar ambos os sexos de acordo com o contexto regional. “A desigualdade de gênero não é estática nem unidirecional”, afirma o documento.
O relatório também enfatiza a importância dos mecanismos de governança e dos perfis PEER, que avaliam a existência e eficácia das leis voltadas à redistribuição de recursos educacionais. A análise se concentra na capacidade dos Estados em prevenir a evasão escolar, agir junto a grupos vulneráveis e oferecer alternativas a aqueles que abandonaram a educação formal.
Um Chamado à Ação Antes de 2030
O panorama regional evidencia a gravidade da situação. Os Estados Árabes apresentam as menores taxas de matrícula no ensino pré-primário globalmente, enquanto a África enfrenta a crise mais severa relacionada a matrículas fora da idade adequada e repetência escolar, fatores que ampliam a exclusão educacional ao longo da vida.
Este novo ciclo de relatórios é descrito pela Unesco como um “acerto de contas final” antes de 2030. Ao reconhecer o fracasso da agenda original, a organização está se preparando para redefinir prioridades globais na educação, em um cenário repleto de desigualdade, conflitos e limitações estruturais persistentes.
