Um cenário desafiador
O Peru enfrenta um momento crítico enquanto se prepara para as eleições presidenciais deste domingo. Com um total de 35 candidatos na disputa, um recorde histórico, a população vai ao voto em meio a uma escalada da violência e instabilidade política no país. De acordo com a última pesquisa realizada pela Ipsos, Keiko Fujimori, que concorre à presidência pela quarta vez, figura como a líder nas intenções de voto, com 15%. A disputa para a segunda vaga do segundo turno está acirrada, com o comediante Carlos Álvarez e o ex-prefeito de Lima, Rafael López Aliaga, ambos com propostas de direita, acumulando 8% e 7% das intenções, respectivamente. O atual presidente interino, José María Balcázar, não pode participar da eleição.
Filha do ex-presidente Alberto Fujimori, cujas gestões foram marcadas por polêmicas e condenações por corrupção e violações de direitos humanos, Keiko propõe a reinstauração dos chamados “juízes sem rosto”, uma medida controversa que já foi adotada nos anos 1990. Por outro lado, López Aliaga sugere o encaminhamento de criminosos para presídios em áreas remotas da Amazônia, enquanto Álvarez defende a pena de morte para pistoleiros.
A falta de confiança e insegurança
Os três candidatos compartilham também a ideia de retirar o Peru da jurisdição da Corte Interamericana de Direitos Humanos, instituição que, segundo eles, tem favorecido criminosos. Se dois destes candidatos avançarem para o segundo turno, o Peru poderá se alinhar ao movimento de governos de direita que tem avançado na América Latina, recebendo apoio dos Estados Unidos.
Com uma população de aproximadamente 34 milhões e com o voto obrigatório, o país observa um crescimento na aceitação de discursos mais duros, especialmente por parte da direita, com Keiko Fujimori à frente nas pesquisas. Entretanto, muitos eleitores se sentem perdidos em meio a esse cenário eleitoral inédito, que também resulta na escolha de um novo Congresso bicameral, com a eleição de deputados e senadores pela primeira vez desde 1990. “Estamos preocupados com o contexto político, há muitos rostos novos que nunca foram vistos”, afirma Carmen Zúñiga, de 50 anos, que gerencia refeitórios comunitários no sul de Lima.
Escalada da violência e desafios econômicos
A escalada da insegurança, intensificada por grupos criminosos estrangeiros que buscam espaço no Peru, se tornou a principal preocupação da população. Embora a economia peruana continue a ser uma das mais estáveis da região, com a menor inflação da América Latina e crescimento nas exportações minerais, os índices de violência também cresceram. A taxa de homicídios, que era de cerca de 1.000 por ano em 2018, deve atingir 2.600 em 2025, enquanto os casos de extorsão saltaram de 3.200 para mais de 26.500 no mesmo período, conforme dados da polícia local.
A socióloga Patricia Zárate, do Instituto de Estudos Peruanos, observa que “o que mudou é a intensidade do crime: extorsão, ataques, assassinatos”. O país chega a este pleito após uma década marcada por incertezas políticas, com oito presidentes, metade dos quais destituídos por um Congresso amplamente rejeitado pela população, que demonstra um descrédito recorde em relação à classe política. Segundo o Latinobarómetro, mais de 90% dos peruanos relatam ter “pouca” ou “nenhuma confiança” no governo e no Parlamento, os índices mais altos da América Latina.
Indecisão entre os eleitores
Os cidadãos peruanos acreditam que a política está não apenas relacionada à corrupção, mas também ao crime organizado, e muitos esperam “mais do mesmo” nas eleições. “Eu não votarei em ninguém que esteja agora no governo, disso eu tenho certeza”, afirma Nancy Chuqui, comerciante de 56 anos. O cenário é complicado, com o passado recente ainda pesando nas decisões dos eleitores.
Em 2021, o esquerdista Pedro Castillo conquistou a vitória mesmo apresentando-se em sétimo lugar nas pesquisas antes da votação. Nesta eleição, outros candidatos que disputam espaço incluem o centrista Ricardo Belmont (6%) e os esquerdistas Roberto Sánchez (5%), Alfonso López Chau (5%) e Jorge Nieto (4%). “Com tanta corrupção, nós, peruanos, perdemos a confiança. Agora qualquer um pode se candidatar”, enfatiza Jane Layza, professora de 51 anos.
O cientista político Eduardo Dargent, da Pontifícia Universidade Católica do Peru, acredita que um eleitorado fragmentado e sem lealdade partidária deve decidir seu voto com informações limitadas, dada a grande quantidade de candidatos. Assim, as eleições no Peru se tornam um reflexo não apenas da busca por novos líderes, mas também da luta contra a crescente insegurança e desconfiança na política.
