A interseção entre memória histórica e democracia nas eleições portuguesas
A memória histórica é uma das conquistas mais significativas da civilização, permitindo que sociedades reconheçam erros do passado, compreendam rupturas e evitem novos ciclos de autoritarismo. No entanto, quando essa memória se transforma em um instrumento de vigilância moral, ocorre uma distorção no cerne da democracia. O que deveria servir para iluminar o presente acaba por se transformar em um bloqueio ao futuro.
Em Portugal, essa transformação ocorreu de maneira insidiosa e gradual. A história do período autoritário que precedeu a Revolução dos Cravos, em 25 de Abril, deixou de ser uma referência para se tornar um critério absoluto de legitimação política. O foco do debate deslocou-se do mérito das ideias e a eficácia das propostas para a filiação simbólica do adversário a um passado que se quer eternamente presente. O resultado é uma democracia formalmente mantida, mas empobrecida em pluralismo, temerosa do dissenso e dependente de rótulos que evitam um confronto honesto de ideias.
Nesse cenário, uma parte significativa da esquerda política e da mídia em Portugal começou a usar a memória histórica como uma estratégia de contenção simbólica, associando qualquer manifestação relevante da direita contemporânea aos fantasmas de um passado autoritário. Essa utilização equivocada da história não apenas fragiliza a democracia, mas a atrofia, confundindo vigilância com interdito e crítica com demonização.
Democracias avançam quando reconhecem e honram seu passado sem se tornarem reféns dele. Distinções rigorosas entre o autoritarismo do passado e a pluralidade política atual são essenciais. A falta dessa distinção resulta em um ambiente onde a alternância política é vista não como uma expressão legítima da soberania popular, mas como uma ameaça existencial.
