A Realidade do Empreendedorismo Sênior no Brasil
Ao se aposentar aos 62 anos, Lúcia Pimentel não imaginava que o descanso seria apenas um sonho distante. A costureira de 71 anos, ciente de que sua aposentadoria a deixava com um salário mínimo, de R$ 937 na época, decidiu persistir no trabalho de costura para complementar sua renda e manter a saúde financeira. “Se eu não trabalhar, faltam coisas necessárias para a minha sobrevivência. Graças a Deus, trabalho. Consigo cuidar da minha saúde”, afirma Lúcia.
Esse relato é representativo de um fenômeno crescente no Brasil: o aumento do empreendedorismo entre pessoas com mais de 60 anos. De acordo com dados do Sebrae, em 2025, o número de empreendedores sêniores alcançou a marca de 4,5 milhões, marcando um crescimento de 58,6% em comparação a 2012.
Motivações do Empreendedorismo Sênior
Para muitos, como Lúcia, a decisão de empreender não foi uma escolha planejada, mas uma necessidade face à realidade financeira. “Não era um sonho, mas a única solução para lidar com as despesas”, explica. Além de atividades como costura, muitos idosos têm buscado alternativas como aulas particulares e serviços diversos para complementar a renda.
Os dados revelam que essa tendência se espalha por todo o país, com a região Norte apresentando a maior taxa de empreendedorismo entre a população sênior, com 15,5%, seguida pelo Centro-Oeste (14,3%), Sul (12,6%), Sudeste (12,3%) e Nordeste (11,6%). Entre os estados, Mato Grosso lidera com 17,5%, seguido por Pará (17,2%) e Tocantins (15,8%).
Perfil dos Empreendedores Sêniors
O perfil desses empreendedores é desigual: 70% são homens e 30% mulheres. Em termos educacionais, 39,6% possuem ensino fundamental incompleto, 22% têm o ensino médio completo e 20,2% possuem ensino superior incompleto ou mais. Para Denise Milk, psicóloga especializada em recursos humanos, esses dados refletem uma adaptação necessária às limitações dos benefícios previdenciários. “A aposentadoria muitas vezes não é suficiente para manter um padrão de vida adequado”, ressalta.
Além das questões financeiras, o trabalho também desempenha um importante papel na vida dos idosos, ajudando a organizar o tempo, manter a autoestima e a utilidade social. “Quando o trabalho desaparece abruptamente, isso pode causar um vazio emocional, levando ao adoecimento. Empreender se torna, assim, uma estratégia de saúde mental”, afirma Denise.
Empreender e a Busca por Planos de Saúde
Para muitos idosos, a formalização como microempreendedor individual (MEI) é fundamental não apenas para gerar renda, mas também para ter acesso a planos de saúde. Dada a insuficiência da aposentadoria para cobrir consultas e mensalidades de planos de saúde, o CNPJ possibilita a contratação de planos empresariais mais acessíveis. “O CNPJ não é um luxo, é uma necessidade”, destaca Rafic Júnior, especialista em empreendedorismo.
Ele observa que o crescimento do empreendedorismo entre os mais velhos é impulsionado tanto pela necessidade de complementar a renda quanto pela busca de um propósito de vida. “Essa geração quer continuar relevante e ativa, não quer parar”, conclui.
Desafios e Oportunidades
Os idosos frequentemente se concentram em setores onde sua experiência e reputação são mais valorizadas, como serviços, comércio, saúde e educação. No entanto, desafios como a burocracia, o acesso limitado a crédito e a adaptação às tecnologias digitais dificultam a formalização de seus negócios. “A orientação adequada pode facilitar essa formalização”, acredita Rafic.
Camila Pellegrino, especialista em Direito Previdenciário, lembra que a maioria dos benefícios previdenciários é reduzida. “A aposentadoria, para muitos, não é mais uma fonte de renda, mas apenas um piso financeiro insuficiente”, comenta. Erika Palma, especialista em Previdência Complementar, ressalta que os idosos muitas vezes entram em atividades com baixa barreira de entrada, mas enfrentam obstáculos como desconhecimento das regras e medo de perder benefícios.
Os especialistas concordam que políticas de inclusão digital, educação empreendedora e combate ao preconceito etário serão essenciais para atender essa crescente demanda por empreendedorismo entre os mais velhos nos próximos anos.
