Ex-CLTs se reinventam no mercado de entregas
Com a promessa de rendimentos que podem alcançar até R$ 12 mil mensais, a flexibilidade de horários e a ausência de chefia direta, o trabalho de entregas por meio de plataformas digitais tem atraído muitos brasileiros que decidiram deixar seus empregos formais. Um levantamento recente mostrou que, em Minas Gerais, o rendimento informal masculino registrou um crescimento de 2,2%. Essa transformação no cenário econômico está mudando a rotina urbana de Belo Horizonte, onde cada vez mais autônomos se aventuram em atividades de entrega.
A cidade mineira se tornou um verdadeiro laboratório da nova economia, com entregadores, muitas vezes sem uniformes ou identificação, realizando entregas rápidas em condomínios e residências. Este modelo de trabalho, que antes era monopolizado pelos Correios, agora representa uma alternativa viável de renda para muitos que se cadastram em plataformas como Amazon, Mercado Livre e Shopee.
Histórias de sucesso nas entregas
Um exemplo claro dessa mudança é o de Jaderson Barbosa dos Santos, de 43 anos. Após 20 anos trabalhando como motorista com carteira assinada, ele decidiu se tornar entregador autônomo da Amazon. Em cerca de um ano, Jaderson adquiriu um veículo próprio e passou a se dedicar exclusivamente à nova função. Nos meses mais favoráveis, ele chega a faturar até R$ 12 mil, um valor que representa três vezes o que recebia como empregado formal.
Embora tenha despesas mensais de aproximadamente R$ 2.500 com combustível, seu rendimento líquido ainda é superior ao do emprego anterior. Jaderson destaca que a autonomia financeira foi um grande motivador para essa mudança, antecipando um plano que pretendia implementar apenas aos 45 anos.
Crescimento do rendimento informal masculino
Os dados corroboram sua experiência. A Síntese de Indicadores Sociais, publicada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indica que o único grupo com crescimento no rendimento médio em 2024 foi o de homens em trabalhos informais, com uma alta de 2,2%. Por outro lado, as mulheres em ocupações informais enfrentaram uma queda de 1,2%. No mercado formal, os homens viram uma redução de 0,5% na média de rendimentos, enquanto as mulheres tiveram uma diminuição ainda maior, de 5,3%.
O estudo considera ocupações informais diversas, incluindo trabalhadores domésticos sem carteira, autônomos e empregadores sem contribuição à previdência.
A flexibilidade no trabalho de entregas
Além da questão financeira, Jaderson destaca a ausência de chefia e a maior flexibilidade de horários como fatores que pesaram na decisão de deixar o emprego formal. Ele alega que ter a liberdade de gerenciar seu próprio tempo foi uma das principais vantagens dessa escolha.
Por outro lado, Augusto Cruz, de 34 anos, entrega para a Shopee desde 2023 e observa mudanças no mercado. Ele relata que, atualmente, realiza entre 100 e 120 entregas por dia, trabalhando três dias na semana, com um ganho médio de R$ 335 por dia. Entretanto, a crescente concorrência tem reduzido o número de entregas disponíveis, o que exige um rodízio entre os entregadores. Augusto complementa sua renda com corridas em aplicativos, conseguindo assim fazer cerca de R$ 150 extras diariamente para cobrir seus custos.
Impacto das plataformas na renda dos motoristas
Conforme a Shopee, atualmente há 45 mil motoristas parceiros no Brasil, embora não tenha sido divulgado o número específico de Minas Gerais. Tiago Freddi, responsável pela logística da empresa, comenta que pesquisas internas apontam que 80% da renda mensal dos entregadores provém da plataforma. Muitas dessas pessoas relatam conquistas significativas, como a compra de veículos ou imóveis e a melhoria no acesso a serviços e bens.
Casais como Flora Fonseca, de 27 anos, e João Paulo Marsicano, de 28 anos, também estão se beneficiando do trabalho de entregas. Juntos, eles atuam no Mercado Livre e conseguem gerar uma renda de aproximadamente R$ 2 mil ao mês. Após três meses na função, decidiram optar por rotas mais curtas, realizadas em jornadas de quatro horas, com pagamentos que variam entre R$ 120 e R$ 280. Para o casal, essa atividade é uma solução temporária.
Requisitos para se tornar entregador
As plataformas de entrega estabelecem algumas exigências para os aspirantes a entregadores, como a apresentação de uma Carteira Nacional de Habilitação (CNH) categoria B, um veículo em boas condições e a emissão de nota fiscal, seja por meio de CNPJ ou MEI. Embora as diretrizes variem de uma empresa para a outra, os critérios estão disponíveis nos canais oficiais das plataformas.
