Crise Hídrica Global: Um Despertar Urgente
22 de janeiro de 2026
Fred Santana – Da Cenarium
MANAUS (AM) – O mundo enfrenta uma grave crise hídrica, marcada pela falência sistêmica dos recursos hídricos. O alerta foi destacado no relatório intitulado “Global Water Bankruptcy: Living Beyond Our Hydrological Means in the Post-Crisis Era”, publicado pela Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH). O estudo aponta que o consumo de água pela população humana superou a capacidade de regeneração dos recursos naturais, indicando que a escassez não é um fenômeno passageiro, mas uma condição estrutural de insolvência. Este cenário impacta diretamente cidades, governos e milhões de pessoas ao redor do globo.
De acordo com o documento, 75% da população mundial reside em países classificados como inseguros ou criticamente inseguros em relação ao acesso à água. Estima-se que cerca de 4 bilhões de indivíduos enfrentem escassez severa em algum momento durante o ano, afetando não apenas o abastecimento doméstico, mas também a produção agrícola e a saúde pública.
Acesso Desigual à Água Potável
A desigualdade no acesso aos serviços básicos de água também é alarmante. Aproximadamente 2,2 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável gerida de forma segura, e 3,5 bilhões vivem sem um sistema adequado de saneamento. O relatório revela que, mesmo em regiões onde as reservas de água são aparentemente estáveis, a poluição e a degradação ambiental comprometem a quantidade de água disponível para uso.
O estudo da UNU-INWEH diferencia entre crises e a falência hídrica, afirmando que enquanto as crises são temporárias e, em muitos casos, reversíveis, a falência hídrica resulta em danos permanentes, como a compactação de aquíferos e o derretimento de geleiras, que não se recuperam em escalas de tempo humanas.
O Impacto do ‘Dia Zero’
Um dos conceitos abordados no relatório é o “Dia Zero”, que representa um marco crítico na crise hídrica urbana. Esse termo descreve a situação em que as cidades não conseguem mais fornecer água encanada à maior parte de sua população. Exemplos extremos incluem São Paulo, Cidade do Cabo, Chennai e Teerã, que já enfrentaram esses limites em seus sistemas de abastecimento.
O estudo revela que essas situações não foram causadas apenas por eventos climáticos extremos, mas também por anos de sobrecarga dos recursos hídricos, aumento da demanda e falta de investimento em alternativas de abastecimento. Em todos os casos analisados, o colapso do sistema foi precedido por alertas técnicos e períodos prolongados de estresse hídrico, sem que houvesse mudanças significativas na gestão.
Desigualdade e Governança Hídrica
Os efeitos da falência hídrica não são distribuídos de forma equitativa. O relatório destaca que diferentes grupos sociais enfrentam a crise de maneira desigual, exacerbando as injustiças sociais. Populações de maior renda podem contornar a escassez por meio de infraestrutura privada, enquanto comunidades vulneráveis são as mais prejudicadas, lidando com altos custos e acessos precários.
Crianças, jovens e mulheres em áreas marginalizadas são os mais afetados pela degradação da qualidade da água e pela carência de saneamento. Essa insegurança hídrica também eleva os riscos à saúde e impõe uma carga adicional de trabalho e exposição a doenças. Pequenos agricultores frequentemente têm seus direitos de uso da água ignorados em favor de grandes corporações.
O estudo conclui que as instituições responsáveis pela gestão dos recursos hídricos permanecem organizadas para uma realidade de abundância que já não existe mais. A governança, que se baseia em respostas rápidas a crises, demonstra-se insuficiente em um cenário de falência estrutural, comprometendo a segurança hídrica tanto presente quanto futura.
As próximas Conferências da ONU sobre Água, agendadas para 2026 e 2028, serão cruciais para redefinir a agenda hídrica global. A UNU-INWEH enfatiza que a percepção da água como um recurso finito e limitado é fundamental para a sobrevivência das cidades e das sociedades modernas.
