Uma Nova Estratégia para Enfrentar o Endividamento
Atualmente, uma das principais preocupações do governo é apresentar a economia sob uma luz positiva, especialmente com as eleições se aproximando. No entanto, o Datafolha revela que 46% dos brasileiros acreditam que a economia do país piorou, um aumento em relação ao índice de 41% registrado em dezembro. Essa percepção negativa pode ser atribuída ao elevado nível de endividamento da população. Dados recentes mostram que, em janeiro de 2026, 79,5% das famílias brasileiras estavam endividadas, o maior índice já registrado pela Confederação Nacional do Comércio.
A inadimplência também é alarmante. Em julho de 2025, cerca de 78,2 milhões de brasileiros estavam com os nomes negativados, representando 47,9% da população economicamente ativa. O Banco Central destaca que, em média, até 29% da renda familiar é comprometida com pagamentos de cartões de crédito, empréstimos consignados e financiamentos. Este cenário se estende ao setor empresarial, onde havia 8,4 milhões de CNPJ negativados em setembro de 2025, correspondendo a 31,6% dos negócios ativos.
Em resposta a essa situação crítica, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu na terça-feira com seus principais assessores e a equipe econômica, incluindo o novo ministro da Fazenda, Dario Durigan. Durante o encontro, em vez de considerar alternativas de mercado para a redução de juros ou estratégias que prolonguem o prazo das dívidas, a proposta do presidente foi uma intervenção no custo do crédito rotativo dos cartões.
Os juros do crédito rotativo são, de fato, exorbitantes. Com a Selic a 14,75% ao ano, muitas instituições financeiras cobram juros superiores a 14% ao mês. Quando esses números são anualizados, a taxa salta para impressionantes 434,21% ao ano. Isso significa que um empréstimo de R$ 1.000,00 pode se transformar em R$ 5.342,10 após um ano.
Em 2018, durante o governo Michel Temer, houve uma tentativa de intervenção nas regras do rotativo, mas os efeitos foram limitados e temporários. O mercado, como se sabe, encontra sempre formas de contornar as intervenções, tornando a eficácia do controle questionável.
Alternativas Sustentáveis para o crédito
Como, então, resolver essa questão sem recorrer a decretos? Uma solução seria modernizar os sistemas de análise de risco usados pelas instituições financeiras. No Brasil, as abordagens ainda tratam bons e maus pagadores de forma semelhante, o que acaba elevando a taxa média de juros. Com a adoção de ferramentas de “scoring” mais avançadas, seria possível uma avaliação mais justa do risco. Assim, quanto mais preciso for o julgamento, menor será a necessidade de compensar as ineficiências com taxas altas, criando um ciclo virtuoso onde instituições mais eficazes atraem bons pagadores.
Outra opção viável seria a substituição das modalidades de crédito mais onerosas por opções mais acessíveis. O rotativo e o cheque especial são, por definição, recursos emergenciais e de altíssimo risco. A ampliação de linhas de parcelamento automático com juros pré-definidos ou o desenvolvimento de cartões com garantias reais poderia ser benéfica. Embora já existam essas modalidades, elas enfrentam desvantagens devido a entraves regulatórios e tributários. Removendo essas barreiras, os consumidores tendem a migrar para opções mais baratas, diminuindo a dependência das alternativas mais caras.
Além disso, é essencial investir em educação financeira. Em vez de campanhas governamentais genéricas, as empresas podem desenvolver ferramentas práticas que se integrem ao cotidiano do consumidor. Aplicativos que alertam sobre o risco de endividamento, programas de fidelidade que recompensam bons pagadores e simuladores que mostram o custo real das operações podem ajudar os consumidores a evitar armadilhas como o rotativo e o cheque especial. Quando bem informados, os consumidores tornam-se mais exigentes, forçando o mercado a competir por eles.
Por último, a expansão do mercado secundário de crédito por meio da securitização pode trazer benefícios significativos. Em economias desenvolvidas, não é comum que bancos assumam todo o risco do crédito até o seu vencimento; em vez disso, esses riscos são transferidos a investidores com diferentes perfis de retorno. Isso aumenta a liquidez, dilui riscos e permite uma maior disponibilidade de capital para novas operações. No Brasil, esse mercado ainda é incipiente, mas possui um grande potencial. Facilitar a circulação do crédito pode resultar em custos mais baixos para os tomadores, pois os bancos não precisarão ser os únicos responsáveis pelo financiamento.
Se combinarmos essas quatro abordagens – melhor avaliação de risco, produtos mais eficientes, consumidores informados e um mercado secundário robusto – poderemos criar uma estratégia de livre mercado capaz de reduzir estruturalmente os juros, sem a necessidade de intervenções diretas. Ao invés de tentar controlar o rotativo, o foco deve ser na construção de um ecossistema financeiro mais competitivo e transparente, onde juros abusivos não tenham lugar. Essa alternativa pode ser mais lenta que um decreto, mas definitivamente é mais sustentável.
