Histórias Reveladas em Livro Sobre Leonel Brizola
Um novo livro intitulado “Leonel Brizola por ele mesmo – Documento inédito” está prestes a lançar luz sobre aspectos desconhecidos da vida do ex-governador do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. A obra, organizada pela neta do político, Juliana Brizola, em parceria com a pesquisadora e jornalista Rejane Guerra, reúne depoimentos que foram gravados em fitas cassetes e permaneceram guardados por mais de três décadas. Com um total de quatro horas e 20 minutos de gravações, o material apresenta uma narrativa rica sobre a infância, juventude e os primeiros passos de Brizola na política.
Essas gravações, que fazem parte de um projeto de história oral da Câmara Municipal de Carazinho, sua cidade natal, foram redescobertas recentemente, oferecendo um olhar aprofundado sobre momentos cruciais da vida do ex-governador. O livro conta ainda com um QR Code que permite aos leitores acessarem as gravações originais, acompanhadas de fotos que enriquecem ainda mais a narrativa.
Relatos de uma Infância Difícil e Lutas na Juventude
Durante os depoimentos, Brizola compartilha experiências marcantes de sua infância, como o tempo que passou trabalhando em um açougue. Um dos seus maiores sonhos era estudar em um internato, mas devido a dificuldades financeiras, ele invadia a escola local, onde acabou sendo expulso diversas vezes. “Eu adorava olhar aquilo ali. Às vezes invadia a escola e me botavam pra fora. Eu ia distribuir carne, levava aqueles ganchos”, relembrou.
O ex-governador também falou sobre as barreiras que enfrentou ao tentar se matricular em uma escola técnica. Sem a certidão de nascimento e sem condições financeiras, ele descreveu sua saga: “Aos 14 anos, consegui passar para escola técnica. Na matrícula, eu não tinha certidão de nascimento nem dinheiro para o enxoval. Foi uma saga”. Sua jornada o levou a Porto Alegre, onde viveu em condições precárias por quase um ano.
Polarização Política e Ativismo
Ao entrar na universidade, Brizola descreveu o ambiente polarizado entre direita e esquerda que encontrou. Ele afirmou nunca ter se identificado com o comunismo: “(Os estudantes) estavam divididos em dois grupos, a metade era do Partido Comunista, todo aparelhado, com células. E tinha os punhos de renda, filhos dos fazendeiros, gente rica. Nós éramos diferentes, porque nós trabalhávamos”, explicou.
O depoimento também resgata a participação de Brizola em uma passeata organizada por operários em defesa dos direitos trabalhistas, um evento que foi fundamental para sua trajetória política. O movimento abriu as portas para o trabalhismo em sua vida, revelando sua conexão profunda com a luta por direitos sociais.
A Redescoberta das Fitas e o Lançamento do Livro
Juliana Brizola, ao tomar conhecimento do conteúdo das fitas, iniciou uma busca pelas gravações originais após receber do ex-deputado Romeu Barleze, um caderno com a transcrição da conversa. A tarefa não foi fácil, mas as fitas foram localizadas com a ajuda do jornalista Nélson Rolim, em Santa Catarina, e passaram por um processo de restauração.
Emocionada, Juliana afirmou: “Foi muito emocionante escutar o meu avô Leonel Brizola dando esse depoimento sobre episódios de sua infância e juventude, a grande maioria eu desconhecia”. Rejane Guerra, por sua vez, dedicou-se a vasculhar as cidades de Carazinho e São Borja em busca das fitas, reconhecendo a importância histórica do material encontrado.
O Lançamento da Obra e Reconhecimento
Com um prefácio de Roberto D’Avila e apresentação do colunista do GLOBO Bernardo Mello Franco, o livro será lançado em três datas: 23 de março na Câmara de Porto Alegre, 25 de março em Carazinho e, por fim, no Rio de Janeiro em 8 de abril, na Travessa do Leblon. A obra promete não apenas trazer à tona a vida de Brizola, mas também contribuir para a discussão sobre a trajetória política e social do Brasil.
