Desbravando as Profundezas do Oceano
Ao avistar Fabien Cousteau, é fácil fazer uma analogia com um astronauta em plena atividade no espaço. O que poucos sabem é que ele se encontra a 63 pés abaixo da superfície do Oceano Atlântico, no único laboratório científico habitável subaquático do mundo, o Aquarius. Lá, ele lidera uma equipe de cientistas em uma missão que já dura 15 dias e que promete estabelecer um novo recorde de permanência no fundo do mar: 31 dias.
Durante a Missão 31, Cousteau realiza estudos sobre a saúde dos corais, ameaçados pelo escoamento de fertilizantes e outros poluentes. “O que descobrimos foi surpreendente e revela por que os recifes próximos a áreas urbanas estão se degradando”, comentou o explorador.
Essa missão é de vital importância para Cousteau, que busca entender como a poluição e as mudanças climáticas afetam os oceanos. Além disso, é uma continuação do legado de sua família. Cinquenta anos atrás, seu avô, o icônico explorador Jacques Cousteau, já realizava missões subaquáticas que mudaram a forma como vemos o oceano. A Missão 31 é a resposta de Fabien a esse chamado familiar, um esforço para preservar e estudar as águas que seu avô tanto amava.
Uma Expedição Desafiadora
Chegar ao Aquarius não é tarefa fácil, mesmo para mergulhadores experientes. Eu, junto ao fotojornalista Ed Linsmier, embarco em um barco simples que nos leva de Islamorada Key até a plataforma amarela de 30 pés de largura, onde um aviso de “proibido entrar” saudou nossa chegada. É ali que vivem os aquanautas, e que a vida no fundo do mar se torna possível.
O Aquarius, financiado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica desde os anos 80, conta com alojamento básico, incluindo seis camas, uma cozinha e um banheiro, além de sinal wi-fi que permite uma transmissão ao vivo 24 horas. O custo diário para manter o laboratório é de aproximadamente R$ 75 mil.
Após ancorar, a equipe se mobiliza rapidamente, cada membro com uma função específica. Minha tarefa é capturar vídeos em 360 graus da expedição, enquanto Ed se dedica às fotografias. Antes de mergulharmos, fazemos uma verificação rigorosa de nosso equipamento, uma precaução necessária em uma operação tão complexa. Assim que mergulhamos, somos imediatamente confrontados por correntes fortes, o que torna o acesso ao laboratório uma verdadeira prova de resistência.
Ao atingir a profundidade de 63 pés, avisto Fabien em meio a outros cientistas. A cena que se desenrola diante de mim é impressionante: o fundo do mar repleto de equipamentos, garrafas de ar e estruturas de suporte, enquanto o Aquarius se camufla entre corais e esponjas. Ao lado do laboratório, uma construção que se assemelha a um módulo lunar, chamada Gazebo, serve como abrigo em caso de emergência.
Avanços na Pesquisa Marinha
Paralelamente à Missão 31, observações comportamentais de predadores estão sendo realizadas. Câmeras de alta velocidade capturam momentos inusitados, como o ataque de um camarão mantis a sua presa. Fabien ressalta que é preciso esperar horas para registrar esses movimentos, que ocorrem em frações de segundo.
Quando a Missão 31 chega ao final, no dia 2 de julho, Fabien reflete sobre a experiência. “É emocional sair de lá. Você se adapta a essa vida subaquática, onde tubarões e moreias parecem curiosos sobre você”, conta ele, visivelmente comovido. A missão não apenas quebrou um recorde de duração, mas também produziu o equivalente a dois anos de pesquisa em um único mês. O resultado? 12 terabytes de dados, um volume impressionante que pode gerar pelo menos 10 novas publicações científicas.
Entre os pontos de pesquisa, estão os efeitos dos nutrientes nos corais e a possível presença de hidrocarbonetos em decorrência de derramamentos de petróleo. Se tudo ocorrer como planejado, essas descobertas poderão representar uma contribuição significativa para o campo da pesquisa oceânica.
Sobre os próximos passos, o Aquarius continuará a receber pesquisadores para estudos mais curtos, e a NASA já planeja uma visita para investigar a interação humana em ambientes isolados. E Fabien, em sua missão de preservação, sonha com o lançamento da Missão 32 em breve.
