Sobrevivente Recorda Últimos Momentos com a Mãe
O jovem sobrevivente de um naufrágio trágico em Manaus compartilhou o desespero vivido em seus últimos momentos com a mãe. “Estava sem colete. Ela me deu o dela, mesmo sabendo que eu sabia nadar e ela não. Ela se agarrou a mim, mas o desespero tomou conta. As últimas palavras dela foram: ‘filho, se salva’. Depois disso, ela desapareceu”, relatou o adolescente, emocionado. O naufrágio da lancha Lima de Abreu XV, que partiu de Manaus com destino a Nova Olinda do Norte, ocorreu na sexta-feira, dia 13 de outubro. Até o momento, duas vítimas fatais foram confirmadas: uma criança e uma jovem de 22 anos. Além disso, sete pessoas ainda estão desaparecidas, enquanto 71 foram resgatadas com vida, conforme informações do Corpo de Bombeiros.
João, o jovem sobrevivente, expressou sua dor ao tentar encontrar forças em meio à tragédia. “Meus pais sempre foram meus melhores amigos e sempre fizeram tudo por mim. Eles se sacrificaram para me salvar naquele momento”, enfatizou. Para ele, a espera por notícias de sua mãe se torna cada vez mais angustiante.
Sobrevivência e Desespero
Outro sobrevivente da mesma família, Benjamin, teve uma experiência de sobrevivência marcante. Ele foi colocado dentro de um cooler e protegido até a chegada do resgate. Sua mãe, Dyulia Morais, relembrou os momentos aterradores. “Foi muito difícil. É horrível ver seu filho engolindo água, saindo água pelo nariz”, contou. Apesar de agradecer pela sobrevivência de Benjamin, Dyulia vive agora a angústia de aguardar notícias de seus familiares desaparecidos, incluindo Romualdo de Almeida, de 80 anos, e sua esposa, Apoliana Almeida, mãe de João Henrique.
A família estava a caminho de Nova Olinda do Norte para comemorar o Carnaval e, segundo Dyulia, o planejamento inicial estava para correr tudo bem. “Estávamos todos ansiosos para ficarmos juntos, mas a chuva atrasou nossa partida”, disse Dyulia, mencionando a última conversa com Apoliana, que demonstrava receio em relação à viagem. “Ao chegar, ela comentou que tinha colocado os nomes nas pulseirinhas para que ninguém se perdesse e brincou dizendo que ‘essa tua parceira morre de medo de lancha’. Quando saímos, ela começou a gritar desesperadamente”, relatou.
Busca por Desaparecidos e Dificuldades nas Operações
Familiares permanecem esperançosos, mas também exigem respostas sobre a busca por seus entes queridos. “Meu pai e minha madrasta continuam desaparecidos, assim como outras pessoas. As famílias necessitam de informações oficiais sobre as buscas”, desabafou Romualdo Almeida Filho. A operação de busca é complexa e conta com equipes do Corpo de Bombeiros e da Marinha do Brasil, que continuam a procura por desaparecidos no naufrágio da lancha. A embarcação foi localizada a cerca de 50 metros de profundidade, e as buscas envolvem uma série de recursos, como mergulhadores, embarcações, drones e voos aéreos.
O comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas, coronel Muniz, destacou os desafios enfrentados nas buscas. “Os fatores hidrodinâmicos do Encontro das Águas dificultam muito as operações. Temos mudanças nas correntes de arrasto, especialmente do Rio Solimões, que possui uma correnteza mais forte. A profundidade e as diferenças de temperatura também complicam nosso trabalho”, explicou. Para auxiliar nas operações, o Grupamento de Bombeiros Marítimo (GBMar) de São Paulo enviou reforços, incluindo seis bombeiros militares, entre eles um capitão.
O Acidente e o Comandante Preso
O naufrágio ocorreu por volta das 12h30 do dia 13 de outubro. Vídeos divulgados pela Rede Amazônica flagram diversas pessoas na água, incluindo crianças, em botes salva-vidas enquanto aguardavam socorro. Uma passageira relatou que havia alertado o condutor da lancha para desacelerar devido ao banzeiro, característico da região. Após o acidente, o comandante da embarcação, José Pedro da Silva Gama, de 42 anos, foi preso em flagrante e, após pagamento de fiança, foi liberado, mas responderá por homicídio culposo. A Justiça já solicitou a prisão preventiva do piloto no dia seguinte ao acidente.
A Marinha do Brasil manteve equipes nas áreas de busca do naufrágio da lancha Lima de Abreu XV. O Comando do 9º Distrito Naval informou que uma aeronave do 1º Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral do Noroeste, uma embarcação do 1º Batalhão de Operações Ribeirinhas e duas lanchas da Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental estão empenhadas na busca. As operações continuam tanto na área do acidente quanto nas margens dos rios, com apoio de embarcações, mergulhadores e coleta de dados dos sobreviventes para auxiliar nas investigações e nos esforços de resgate.
