Determinantes do Depoimento
MANAUS (AM) – Alcir Queiroga Teixeira Júnior, o dono da Revoar Turismo, confirmou em um depoimento prestado à Polícia Civil do Amazonas (PC-AM) que a assessora pessoal do prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), fez um pagamento de R$ 34 mil em espécie. Este montante foi utilizado para a emissão de passagens aéreas para a viagem do prefeito e da primeira-dama, Izabelle Fontenelle, à ilha Saint Martin e Saint Barth, no Caribe, em fevereiro de 2025.
A Revoar Turismo está sendo investigada na Operação Erga Omnes, que apura movimentações suspeitas que totalizam mais de R$ 70 milhões entre integrantes de uma organização criminosa que atuou em sete estados nos últimos quatro anos. A REVISTA CENARIUM teve acesso ao depoimento do empresário, que foi realizado no dia 20, coincidentemente no mesmo dia em que ele foi preso.
Conexões com o Crime Organizado
No decorrer da operação, além de Alcir, Anabela Cardoso, a ex-chefe de gabinete, e outras 11 pessoas foram detidas mediante mandados de prisão. As investigações visam identificar a infiltração do Comando Vermelho (CV) na administração pública e em segmentos do Poder Judiciário. Ao contrário de outros investigados que optaram por permanecer em silêncio, Alcir decidiu colaborar com as autoridades, confirmando que Anabela era sua cliente e responsável por adquirir passagens não somente para si, mas também para o prefeito e sua família.
Entre os familiares mencionados estavam a esposa do prefeito, Izabelle Fontenelle, sua mãe Lidiane Oliveira Fontenelle, e o sobrinho Kássio Almeida. Além disso, o vice-prefeito Renato Frota Magalhães também estava entre os envolvidos que, após a deflagração da operação, tentaram um Habeas Corpus Preventivo, mas desistiram do pedido.
Viagem ao Caribe e os Pagamentos em Dinheiro
Um dos elementos mais reveladores do depoimento foi a confirmação de que a viagem realizada em 2025 foi paga integralmente em dinheiro. O empresário detalhou que emitiu as passagens para David Almeida e Izabelle, ressaltando que o valor foi pago em cédulas, principalmente de R$ 50 e R$ 100. Esse tipo de pagamento, segundo Alcir, era uma prática comum quando as passagens eram destinadas a funcionários da Prefeitura de Manaus.
Questionado sobre a origem do dinheiro, Alcir demonstrou incerteza: “Não sei se o dinheiro provinha do tráfico de drogas, do crime organizado ou de desvio de verbas públicas.” O uso de dinheiro vivo é frequentemente associado a atividades ilícitas, dificultando rastreamentos financeiros e aumentando as suspeitas de lavagem de dinheiro.
Estrutura da Revoar Turismo e Questões Contratuais
Alcir rejeitou a informação de que teria recebido um único depósito de R$ 1.350.000,00 de Anabela Cardoso Freitas, que constava em relatórios financeiros do Coaf. Ele admitiu, no entanto, que recebeu diversos depósitos menores ao longo dos meses, totalizando valores substanciais.
Outro ponto destacado pela polícia é que a Revoar Turismo operava em um modelo de “porta fechada”, sem uma sede física acessível ao público ou um site ativo. Esses aspectos levaram a investigação a considerar a empresa como uma possível fachada, caracterizando entidades formalmente registradas, mas com estrutura incompatível com o volume de negócios declarado.
Alcir ainda afirmou que não possuía um contrato formal com a Prefeitura de Manaus. Segundo ele, os serviços eram prestados diretamente a pessoas físicas, mas os pagamentos eram intermediados por Anabela Cardoso Freitas, que utilizava dinheiro em espécie para cobrir as despesas da “família Almeida”.
O depoimento de Alcir se torna um elemento crucial na investigação da Operação Erga Omnes, revelando como uma organização criminosa pode ter se infiltrado na administração pública municipal. As investigações ainda buscam desvendar os envolvidos e suas ações ao longo de quatro anos, que resultaram na movimentação de aproximadamente R$ 70 milhões.
A REVISTA CENARIUM busca ouvir o prefeito de Manaus para obter esclarecimentos sobre as revelações apresentadas.
