Análise da Perseguição a Bolsonaro e os Mecanismos de Vítima Coletiva
Segundo o escritor Ruy Castro, o clima espiritual do Brasil está marcado por um ambiente de hostilidade, refletido em sua primeira coluna de 2026 na Folha de S.Paulo. O país, que já vive momentos de intensa polarização, enfrenta um cenário onde Jair Bolsonaro, embora fisicamente debilitado e politicamente derrotado, continua a ser alvo de um ódio persistente. Para Castro, essa falta de compaixão e a exigência de que a figura do ex-presidente permaneça como vítima são sinais de um conflito que vai além da política comum, revelando uma dinâmica ritualística e sacrificial.
Para compreender esse fenômeno, o autor se inspira nas ideias do antropólogo francês René Girard. Ele argumenta que, em contextos de tensão social, as sociedades tendem a buscar reconciliação não por meio da verdade, mas pelo linchamento de uma vítima coletiva, que serve para expiar os males acumulados. Girard observa que, após períodos de conflito, pode haver um consenso em torno de um bode expiatório, cuja inocência é reconhecida fora do grupo, mas invisível para os envolvidos na perseguição. Assim, a violência se torna contagiosa, e a crença na culpa da vítima é necessária para manter um equilíbrio psíquico.
A comparação entre Jesus Cristo e Apolônio de Tiana, abordada por Girard, é emblemática. Ambos, apesar de operarem em tempos de crise e lidarem com multidões propensas à violência, possuem abordagens opostas. Enquanto o cristianismo revela o mecanismo do bode expiatório e propõe a paz, o paganismo sagrado perpetua essa lógica através do sacrifício. No relato de Apolônio, a cidade de Éfeso, assolada por uma epidemia, busca a salvação em um taumaturgo. Ao convocar a população a apedrejar um mendigo, Apolônio ativa um ciclo de violência que culmina na sua própria deificação como salvador.
Esse “milagre horrível”, conforme Girard, é a efetivação do mecanismo sacrificial. A dinâmica de violência em Éfeso espelha a situação atual do Brasil, onde Alexandre de Moraes assume o papel do curandeiro togado, promovendo um processo de apedrejamento simbólico contra Bolsonaro, que é visto como o demônio da democracia. As acusações contra o ex-presidente, embora muitas vezes careçam de fundamento, são mobilizadas em um contexto onde a verdade se torna secundária em relação à eficácia simbólica.
Nos primeiros anos de sua perseguição, ainda havia dúvidas jurídicas e morais sobre o direcionamento das ações de Moraes. Contudo, essas hesitações rapidamente se dissiparam em um ambiente de histeria coletiva, onde cada decisão judicial se torna uma nova pedra a ser lançada. A responsabilidade moral é diluída no consenso de um grupo que busca apenas a eliminação do “demônio”, sem questionar a brutalidade do processo. Assim, o foco se desloca da violência do apedrejamento para a suposta monstruosidade da vítima.
O que se observa atualmente no Brasil transcende uma mera disputa jurídica ou política; é uma guerra cultural e espiritual. Um embate entre duas concepções antagônicas de justiça: a cristã, que busca interromper o ciclo de violência, e a sacrificial, que promove a eliminação de uma vítima para restaurar a ordem. Moraes, em suas declarações, demonstra uma visão de justiça mais voltada para a guerra do que para a reconciliação.
Durante uma entrevista à New Yorker, Moraes fez referência a entidades afro-brasileiras, ilustrando sua identificação como um guerreiro, deslocando o conceito de juiz para um papel ativo na manutenção da ordem. Essa visão ritualística da justiça não busca a reconciliação, mas sim o sacrifício de um inocente em nome da estabilidade social. A repetição desse ciclo de violência, conforme argumenta Girard, nunca resolve os conflitos de forma definitiva, mas apenas os adia, perpetuando a necessidade de um próximo bode expiatório.
A tragédia atual do Brasil, portanto, reside no fato de que, ao abandonar os princípios cristãos que poderiam desarmar essa lógica de sacrifício, a sociedade se vê presa em um ciclo de linchamento, perpetuando um estado de crise. Alexandre de Moraes emerge como o sumo sacerdote desse ritual, enquanto Jair Bolsonaro assume o papel do mendigo de Éfeso, sacrificado não por sua culpa, mas pela necessidade coletiva de expiar os males sociais. Em suma, a luta pela justiça no Brasil é alimentada por uma dinâmica que clama por um culpado, desafiando a própria essência de um Estado democrático.
