A Política do Espetáculo e suas Implicações
MANAUS – A recente caminhada do deputado Nikolas Ferreira, conforme especialistas consultados pelo ATUAL, revela um espetáculo meticulosamente orquestrado para desviar a atenção de escândalos que cercam a direita brasileira. Essa estratégia não apenas mobiliza emoções coletivas, mas também transforma a política em um grande apelo psicológico, distante do tradicional exercício de organização e gestão social. O fenômeno, dizem analistas, é parte de uma mudança mais ampla no cenário político nacional.
O cientista político Paulo Ramirez destaca que a caminhada de Ferreira visa, entre outras coisas, desviar o foco de questões sérias que afligem parte da direita, como investigações envolvendo o Banco Master e suspeitas sobre verbas parlamentares ligadas a lavagem de dinheiro. “O deputado atua como um ‘distrator’, desviando a atenção dos reais problemas que a sociedade enfrenta”, afirma Ramirez, enfatizando a falta de projetos concretos que beneficiem a população.
Sociedade do Espetáculo
Ramirez acrescenta que vivemos em uma “sociedade do espetáculo”, conceito criado pelo filósofo francês Guy Debord nos anos 70. Nesse cenário, imagens e atos performáticos se sobrepõem ao conteúdo substancial, levando os cidadãos a agir mais por impulso emocional do que por raciocínio lógico. “Nikolas Ferreira é um exemplo dessa lógica mercadológica aplicada à política atual, onde a imagem e a viralização são priorizadas”, analisa.
Ele observa que, embora a política sempre tenha envolvido emoção, hoje essa característica se manifestou de maneira sem precedentes, especialmente em tempos digitais. O apelo emocional, segundo o especialista, tem se mostrado extremamente eficaz, levando muitos a apoiarem movimentos que, ironicamente, contrariam seus interesses sociais e econômicos.
Apelos Emocionais e Ambições Futuras
Afrânio Soares, também especialista na área, concorda com a análise de Ramirez e destaca que a atuação de Ferreira está atrelada ao contexto da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. “A popularidade que ele constrói agora será crucial para suas aspirações futuras, quando ele estiver apto a concorrer à Presidência”, afirma Soares. A busca por mobilização emocional é uma tática que, segundo ele, sempre fez parte da política, mas que se intensificou na era da informação.
Os analistas concordam que os discursos da extrema direita carecem de propostas concretas voltadas para o bem-estar social, como saúde e educação. Ao invés disso, se apresentam mais como repetições de lemas genéricos que visam beneficiar apenas elites econômicas. Welton Oda, professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), critica a construção ideológica que demoniza a defesa de direitos sociais, rotulando-os como sinônimo de preguiça e falta de caráter.
A Crise de Credibilidade e o Futuro da Extrema Direita
Oda argumenta que essa narrativa distorcida, que associa assistência social e direitos básicos a ideais comunistas, é uma armadilha que engana parte da população. “A ideia de que depender de benefícios sociais é sinal de fraqueza é uma grande ilusão”, enfatiza. Para Ramirez, essa frustração econômica gerada por políticas neoliberais contribui para o surgimento de discursos que oferecem soluções ilusórias, como aqueles que envolvem lemas de fé e patriotismo.
As falácias da extrema direita, conforme os especialistas, são exacerbadas pela falta de reflexão crítica do público. Ramirez afirma que essa dinâmica de transferência de responsabilidade para líderes carismáticos é típica em momentos de crise, onde indivíduos buscam por esperança e direção em figuras que não necessariamente oferecem soluções reais.
A Influência Religiosa na Política
Outro aspecto destacado é a crescente influência de pastores evangélicos na política brasileira, que, segundo Oda, se posicionam como salvadores da sociedade com uma interpretação distorcida dos valores cristãos. “A teologia da prosperidade, que promete riqueza e bênçãos, se afasta do verdadeiro cristianismo, que defende a solidariedade e a justiça social”, afirma Oda. Para ele, essa distorção é uma das razões pelas quais muitos se prendem a líderes que fazem promessas vazias.
Afrânio Soares complementa que a presença desses líderes na política reflete interesses corporativos e uma luta pelo poder, e não uma genuína busca por valores espirituais. “A direita, em grande parte, utiliza a religião como uma ferramenta para consolidar sua influência”, argumenta.
Um Futuro Indefinido
Com a prisão de Bolsonaro e a fragmentação da direita, surge a dúvida sobre quem pode assumir o papel de líder da extrema direita no Brasil. Oda e Ramirez ressaltam que a falta de credibilidade e as contradições entre discurso e prática tornam difícil para a extrema direita encontrar novos representantes capazes de reunir a base. “O que vemos é uma batalha por uma narrativa que ainda não foi completamente definida”, conclui Ramirez. Assim, o futuro da política brasileira permanece envolto em incertezas, em um cenário onde a emoção frequentemente se sobrepõe à razão.
