O Paradoxo da Política Fiscal e Monetária no Brasil
A economia brasileira se encontra em um momento intrigante, desafiando as teorias econômicas tradicionais. Desde que a taxa Selic alcançou os 15% ao ano em 2025, o país tem vivenciado uma anomalia: juros altos, redução no desemprego e um mercado acionário atingindo recordes históricos. O que, em outras circunstâncias, seria considerado um contrassenso, agora emerge como um novo paradigma, onde a interação entre política fiscal, inovações tecnológicas e expectativas globais destaca a complexidade da economia frente à taxa básica de juros.
A elevação da taxa de juros, que normalmente visa conter a inflação, apresenta efeitos colaterais significativos. O crédito direcionado a empresas vem registrando uma desaceleração contínua desde 2023, uma tendência que se seguiu ao ciclo de expansão econômica pós-pandemia. O Banco Central aponta que o crescimento do crédito corporativo está perdendo força, refletindo o encarecimento do capital e uma maior seletividade das instituições financeiras. Os balanços dos grandes bancos indicam um aumento nas provisões para devedores duvidosos (PDD), evidenciando um ambiente de risco crescente e uma postura mais cautelosa diante das dificuldades financeiras que muitas empresas estão enfrentando.
Esse contexto traduz o que o mercado denomina de “crédito defensivo”: concessões mais restritas, prazos mais curtos e custos mais altos. Consequentemente, empresas que se endividaram durante o período de juros baixos, com financiamentos pós-fixados vinculados à Selic, agora lidam com uma oferta de crédito mais escassa e margens de lucro deterioradas, levando algumas a reestruturar dívidas ou até mesmo a buscar recuperação judicial.
Paradoxalmente, apesar dos desafios no crédito e do aumento nas falências, o mercado de trabalho se mostra resiliente. Recentemente, a taxa de desemprego no Brasil caiu para 5,6% no início de 2026, o menor índice desde o início da série histórica do IBGE em 2012. Esta contradição tem gerado perplexidade entre economistas, uma vez que as autoridades monetárias consideram a dinâmica do mercado de trabalho um dos principais fatores na definição de políticas de aumento das taxas de juros, com o objetivo de desacelerar a demanda agregada e controlar as expectativas de inflação.
Economistas renomados, como Paul Krugman e Joseph Stiglitz, afirmam que gastos públicos sustentados e transferências sociais têm atuado como um amortecedor do desemprego em diversos países, incluindo o Brasil. Esta visão contrasta com a crença tradicional de que o ajuste monetário deveria provocar uma desaceleração rápida da economia. Claudio Borio, do Banco de Pagamentos Internacionais (BIS), argumenta que as mudanças tecnológicas e financeiras estão alterando a relação entre crédito, investimento e inflação, criando um “novo fundamento monetário”.
O desempenho do mercado financeiro reforça essa narrativa paradoxal. O Ibovespa, por exemplo, atingiu 191 mil pontos em fevereiro de 2026, estabelecendo um novo recorde histórico, evidenciando um rali que reflete uma gama mais ampla de forças do que apenas a política monetária. Esse crescimento não se deve apenas a lucros bancários, mas também à valorização das ações de empresas ligadas a commodities, tecnologia e consumo interno, que se beneficiaram da melhora, ainda que leve, nas perspectivas fiscais e na entrada de capitais estrangeiros em busca de mercados emergentes sólidos.
Com juros altos, uma estrutura institucional estável e um crescimento global moderado, o Brasil voltou a ser um foco de atração para investidores internacionais, resultando em um mercado acionário que prospera durante um aperto monetário. Este fenômeno é um reflexo de uma economia que se revela mais complexa e menos previsível do que os modelos econômicos clássicos sugerem.
A introdução da inteligência artificial (IA) nos modelos macroeconômicos tradicionais também pode ser uma mudança significativa. Esta tecnologia potencializa o produto, reduz os custos marginais e permite uma combinação de maior produção com inflação controlada.
Após um longo ciclo de aperto monetário, o esperado seria um desaceleramento acentuado da economia. No entanto, o Brasil vive um momento peculiar: mesmo com juros elevados, a taxa de desemprego continua a cair e o Ibovespa registra máximas históricas. Esta combinação de política monetária restritiva, um mercado de trabalho forte e uma bolsa otimista sugere uma dinâmica mais intrincada, repleta de expectativas favoráveis e uma reanálise de confiança.
Contudo, se o presente se mostra estável, o futuro carrega preocupações. O mundo enfrenta crescimento baixo e elevados níveis de endividamento, tanto público quanto privado. Segundo o World Economic Outlook 2024 do FMI, a dívida global já ultrapassa 336% do PIB mundial, e as economias avançadas devem crescer apenas 1,4% ao ano. Em países emergentes como o Brasil, o desafio fiscal é ainda mais complexo, uma vez que os governos mantêm programas de transferência e subsídios para sustentar o consumo, mas procrastinam a resolução de déficits estruturais.
Este adiamento tem uma natureza política significativa. Em tempos de polarização e ciclos eleitorais, nenhum governo deseja arcar com a impopularidade de um ajuste fiscal rigoroso. Assim, a consolidação das contas públicas é frequentemente adiada, criando um futuro marcado por juros altos e crescimento modesto. Kenneth Rogoff observa que “a nova normalidade não é de inflação descontrolada, mas sim de governos excessivamente endividados tentando equilibrar populismo com credibilidade fiscal”. Esta tensão constante entre responsabilidade fiscal e política é, talvez, o verdadeiro campo de batalha da macroeconomia contemporânea.
A persistência de altas taxas de juros, como ferramenta de política monetária contracionista, tende a reduzir a demanda agregada, deslocando a produção efetiva para níveis abaixo de seu potencial. Por outro lado, esses juros elevados aumentam a atratividade do retorno financeiro, incentivando o aporte de capital e expandindo o mercado de crédito, embora isso ocorra sob a pressão de riscos crescentes, que tornam tais retornos não apenas mais atrativos, mas também mais exigentes quanto à solidez dos ambientes econômicos.
