A Escalada dos Preços do Combustível no Amazonas
MANAUS (AM) – Recentemente, a alta do preço do petróleo, impulsionada pela guerra no Oriente Médio, voltou a pressionar o mercado de combustíveis no Brasil, revelando um paradoxo energético no Amazonas. Embora o estado esteja próximo das reservas de petróleo e gás de Urucu, enfrenta uma das tarifas de combustíveis mais elevadas do país. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que a gasolina em Manaus atingiu cerca de R$ 7,30 por litro, mesmo antes de novos reajustes comunicados pela Petrobras.
Esse cenário surge em um contexto de transformações profundas na cadeia de petróleo no Brasil. A privatização de refinarias e empresas de distribuição nos últimos anos tem alterado drasticamente a dinâmica do setor. A Refinaria de Manaus (Ream), privatizada em dezembro de 2022 e agora sob controle do Grupo Atem, apresentou aumentos significativos nos preços de seus derivados. De acordo com a ANP, a gasolina passou de R$ 2,90 para R$ 3,47 por litro, enquanto o diesel saltou de R$ 3,78 para R$ 5,10 logo após a mudança de controle.
O Impacto da Guerra no Oriente Médio
Com a intensificação do conflito no Oriente Médio em 2026, o Amazonas poderá sentir, novamente, a pressão dos preços internacionais do petróleo. Nas duas primeiras semanas de março, o valor do barril de petróleo tipo Brent subiu de aproximadamente US$ 70 para quase US$ 100, representando um aumento de cerca de 40%. Essa oscilação está ligada ao agravamento das tensões na região e ao risco de bloqueio do Estreito de Ormuz, uma rota marítima crucial que transporta cerca de 20% da produção mundial de petróleo e gás, frequentemente provocando reações intensas nos mercados internacionais.
O barril Brent é uma referência importante para o preço do petróleo bruto no mercado global, originário de campos petrolíferos no Mar do Norte, entre o Reino Unido e a Noruega. A variação desse preço impacta diretamente os custos de combustíveis em vários países, inclusive no Brasil.
Marcus Ribeiro, coordenador-geral do Sindicato dos Petroleiros do Amazonas, comentou sobre essa realidade: “A refinaria privatizada opera hoje com baixa capacidade de refino e depende em grande parte de combustíveis importados. Importam combustível caro e repassam o custo para a população. É uma refinaria que não refina para o povo”.
Pressões no Mercado e Ameaças de Importadores
Recentemente, a pressão sobre o mercado de combustíveis ganhou novos contornos. A Federação Única dos Petroleiros (FUP) denunciou que a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) sinalizou que poderia suspender importações de gasolina e diesel caso a Petrobras não promova aumentos nos preços internos. Para a FUP, essa ameaça compromete o abastecimento e poderia ser uma tentativa de manipulação do mercado por meio da redução na oferta.
Deyvid Bacelar, coordenador-geral da FUP, criticou essa postura: “É um absurdo ameaçar o país com desabastecimento para forçar aumento de preços. O Brasil produz petróleo a custos muito baixos, especialmente no pré-sal, que está entre os mais baratos do mundo”. Ele frisou que a utilização do risco de escassez como pressão no mercado pode prejudicar tanto consumidores quanto empresas.
A FUP alertou que essa conduta pode violar a Lei de Defesa da Concorrência (Lei 12.529/2011) e se enquadrar em crimes contra a ordem econômica, conforme descrito na Lei 8.137/1990, que proíbe limitar a oferta de produtos para causar aumento de preços.
Coincidentemente, após essa denúncia, a Petrobras anunciou um aumento de R$ 0,38 por litro no diesel A, que entrou em vigor no dia 14 de março. A estatal justificou que o aumento era necessário em função da alta do petróleo no mercado internacional, um reflexo da atual volatilidade geopolítica.
Reflexões sobre a Privatização e a Estrutura do Setor
A recente escalada nos preços também reacendeu discussões sobre as mudanças que ocorreram na cadeia produtiva do petróleo brasileiro. A privatização de refinarias e a venda de subsidiárias da Petrobras na distribuição de combustíveis têm reduzido a capacidade da estatal de intervir em momentos de crise. Bacelar salientou que, “antes éramos uma Petrobras integrada, do poço ao posto, mas hoje enfrentamos um cenário diferente”.
Pesquisadores da área energética corroboram essa visão. Geraldo de Souza Ferreira, professor de Engenharia de Petróleo da Universidade Federal Fluminense, destacou a importância da presença estatal em setores estratégicos. “Quando se retira uma empresa pública de um setor crucial, o Estado perde ferramentas para intervenções necessárias”, explicou.
O petróleo desempenha um papel vital na economia contemporânea, influenciando diversas atividades. Por essa razão, governos de países produtores tendem a manter certo nível de controle sobre esse setor. A privatização da antiga BR Distribuidora, concluída em 2021, também gerou preocupações. A Petrobras, ao perder controle sobre uma parte significativa da distribuição, pode ter aberto espaço para aumentos de preços nas etapas finais da cadeia de fornecimento.
A diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), Ticiana Alvares, mencionou casos de aumento considerável nos preços nos postos. “Já ouvimos relatos de gasolina sendo vendida a R$ 9 em São Paulo, mesmo sem reajustes equivalentes nas refinarias”, afirmou. A FUP também informou que distribuidoras e revendedoras estão elevando os preços ao consumidor final, com margens que chegam a aproximadamente 40%.
