Desafios do Simples Nacional para Empresas de Alimentação
No setor de alimentação fora do lar, a escolha pelo Simples Nacional pode parecer uma decisão natural para muitos empresários. A promessa de simplificação tributária geralmente pesa na balança. Entretanto, especialistas apontam que essa opção nem sempre é a mais vantajosa financeiramente, especialmente para negócios que atuam com delivery, cozinhas industriais e modelos que não dependem de atendimento presencial.
Para essas empresas, o imposto é calculado sobre a receita bruta total da venda, mesmo que uma parte significativa desse valor seja retida por plataformas de entrega na forma de comissões e taxas. Isso implica que o empreendedor paga tributos sobre um faturamento que, na realidade, não representa sua receita líquida, resultando em margens reduzidas e perda de competitividade.
O presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Paulo Solmucci, destaca que, embora o Simples Nacional seja vital para muitos pequenos empreendimentos, ele não deve ser visto como uma escolha definitiva. “À medida que a empresa cresce e sua operação se torna mais complexa, manter um regime que não reflete essa realidade pode levar a distorções, diminuição da competitividade e até questionamentos fiscais”, afirma Solmucci.
Riscos e Consequências da Inadimplência no Simples Nacional
A inadimplência dentro do Simples já acendeu um sinal de alerta na Receita Federal, que começou a notificar as empresas sobre o risco de desenquadramento. Em abril, mais de 1 milhão de negócios de diversos segmentos receberam avisos, totalizando cerca de R$ 12,9 bilhões em débitos acumulados. Em contrapartida, regimes como Lucro Presumido e Lucro Real apresentam uma lógica distinta. Especialistas explicam que as comissões pagas às plataformas de entrega podem ser classificadas como despesas operacionais e, dependendo da situação, ser consideradas no cálculo do imposto.
Além disso, ao optar por um regime diferente do Simples, as empresas podem usufruir de benefícios fiscais estaduais, especialmente relacionados ao ICMS, que não estão disponíveis no regime simplificado. O advogado tributarista Waldemberg Mendes, autor de um estudo técnico sobre o tema, ressalta que o principal problema reside na desarmonia entre a operação e a tributação. “O risco fiscal não é inerente ao modelo de delivery ou ao funcionamento de uma cozinha sem salão. Ele se manifesta quando o regime tributário não se coaduna com a realidade econômica da empresa e as normas estaduais pertinentes”, explica Mendes.
A Importância da Revisão do Enquadramento Tributário
Mendes recomenda que empresas do setor alimentício façam uma revisão do seu enquadramento tributário pelo menos uma vez ao ano ou sempre que houver um crescimento significativo no faturamento, mudanças no modelo de operação ou expansão do uso de plataformas digitais. Uma revisão periódica pode não apenas gerar economia, mas também mitigar riscos fiscais de forma efetiva.
Portanto, é essencial que os empresários estejam sempre atentos às nuances do regime fiscal que escolhem para seus negócios. A análise cuidadosa e a adaptação ao contexto operacional podem representar um diferencial competitivo importante em um cenário de mercado tão dinâmico.
