Reflexões sobre a História Política do Brasil
Uma das melhores sínteses sobre os movimentos erráticos da história pode ser encontrada na poesia. “Eu não quero mais nenhuma chance. Eu não quero mais revanche”, escreveu o compositor Bernardo Vilhena em 1986. O Brasil, na época, atravessava a frustração da Nova República, que já nascia com um fardo. Os versos de Vilhena, imortalizados na voz de Lobão, expressam um sentimento que, 40 anos depois, continua ressoando com força.
O grande movimento das Diretas Já — uma das maiores manifestações populares da história brasileira — havia culminado sem a conquista de eleições diretas para presidente. No entanto, surgiu o acordo em torno de Tancredo Neves, que resultou em mais uma ressaca cívica com sua morte antes de assumir o cargo. Assim, o Brasil se via refletido, mais uma vez, em um espelho distorcido, com seus anseios e esperanças represadas em uma caricatura.
A canção “Revanche”, lançada na mesma época, capturava a essência de um país que parece estar sempre “tentando acertar o passo” sem sucesso. A sociedade se voltava para os princípios, utilizando diversos artifícios. Mas, frequentemente, alguém se aventurava em um salto, e a população acabava pagando o preço por isso.
A busca por superar o varguismo resultou no salto ornamental para Brasília, que se conectou ao salto sem rede do janismo. Em seguida, houve o salto militar sobre o delírio janguista e, em 1986, preparava-se o salto constituinte, que prometia a redenção democrática. De salto em salto, de revanche em revanche, o Brasil chegou à situação em que se encontra hoje.
Os Ciclos de Revanche na Política Brasileira
O país também passou por vários saltos econômicos, envolvendo congelamentos e calotes. Em meio a saltos populistas, assistimos a cenas dantescas como a renovação arcaica de Collor, que buscava revanche à Era Sarney. Depois, houve o salto casuístico da reeleição tucana, seguido pela revanche petista contra FHC.
Após a reação bolsonarista contra o petismo, o ciclo se completou com a revanche petista ao bolsonarismo — além da vingança contra o lavajatismo. Essa dinâmica reativa parece ter um potencial infinito de multiplicação.
Essa tendência é notável na atual corrida presidencial. Entre aqueles que desejam dar o troco ao petismo, observa-se uma patrulha aguerrida tentando atacar os “aliados” que não se alinham ao candidato “certo”. Uma característica marcante dessa dinâmica histórica reativa é uma licença dissimulada para a intolerância. E a intolerância, vale lembrar, é o começo do fim da democracia, mesmo entre aqueles que afirmam estar em busca dela.
A Atual Encarnação do Petismo e Seus Desafios
Atualmente, a encarnação do petismo é considerada a mais problemática de todas. A veia autoritária nunca foi tão dissimulada. O discurso se esconde atrás do mito do “fantasma da ditadura”, alegando que qualquer força contrária ao regime tende à autoritarismo. A questão que fica é: como superar essa situação?
Para o poeta, a chave poderia estar em não buscar a revanche. Essa reflexão foi proposta há 40 anos. Vale a pena questionar se ainda existe uma possibilidade de transformação nesse contexto. O futuro, afinal, pode depender de uma nova abordagem, longe das armadilhas do passado.
