Estatísticas Preocupantes de Acidentes Fluviais
Um recente levantamento realizado pelo professor Carlos Padovezi, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), traz à tona dados alarmantes sobre a segurança das vias fluviais na Amazônia. Desde os anos 1970, foram registrados pelo menos 1.379 óbitos em acidentes nos principais rios da região, como os rios Amazonas, Madeira, Solimões e Negro, além da Baía de Marajó. É importante destacar que esses números não incluem mortes ocorridas em embarcações de pequeno porte sem envolvimento de outros veículos ou quedas na água. Especialistas apontam que a fiscalização na região é frágil, e muitos barcos são precários, o que, somado à crise climática, eleva os riscos associados à navegação.
De acordo com a pesquisa de Padovezi, aproximadamente 60% dos acidentes aquaviários na Amazônia são atribuídos a erro humano, que inclui a falta de habilitação ou treinamento adequado dos condutores, além de falhas em manobras, imprudência e uso de álcool. O estudo também revela que 23,5% dos incidentes ocorreram no Rio Amazonas, que foi o cenário do naufrágio da semana passada, seguido pelo Rio Negro, com 11,7% dos casos.
Necessidade de Melhorias na Fiscalização
A professora Suanne Martins, especialista em transportes hidroviários e docente na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), destaca a urgência de melhorias na fiscalização e na qualidade das embarcações. Segundo ela, a superlotação nos barcos é um problema crítico. “As pessoas são transportadas como sardinhas, dormindo em redes, em longas jornadas. Um trajeto de Santarém a Manaus pode levar até três dias em embarcações grandes e de madeira, ou apenas um dia em lanchas. O efetivo de fiscalização da Capitania dos Portos na Amazônia Ocidental é insignificante, e muitos comandantes burlam o sistema para aumentar a lotação”, apontou.
Recentemente, Pedro José da Silva Gama, condutor da embarcação Lima de Abreu XV, foi detido após um acidente, mas foi liberado mediante fiança. Desde então, ele não se apresentou à Justiça e é considerado foragido.
Impactos das Mudanças Climáticas na Navegação
Além da fiscalização inadequada e superlotação, as mudanças climáticas têm impacto direto nas condições de navegação na Amazônia. A professora Martins ressalta que muitos acidentes estão relacionados com variáveis meteorológicas, como ventos fortes e erráticos, provocados pelo desmatamento. A diminuição da vegetação florestal reduz a “rugosidade” natural que antes servia como proteção contra as rajadas de vento.
O padrão das chuvas também se alterou, com períodos de seca severa intercalados por tempestades intensas, fenômenos relacionados a eventos climáticos como o El Niño. Essa nova dinâmica resulta em ondas mais turbulentas, a formação de bancos de areia nos rios e a presença de troncos e vegetação que se soltam das margens, o que exige maior preparo técnico dos capitães e embarcações mais robustas. “Um piloto precisa estar atento a limites de velocidade e ter um profundo conhecimento do rio. Qualquer falha pode resultar em tragédias”, explicou Martins.
Propostas para Melhorar a Segurança Marítima
Para minimizar os riscos, Padovezi propõe a criação de um sistema de monitoramento de tráfego em tempo real na Amazônia, semelhante ao que se utiliza na navegação marítima e costeira. Isso também incluiria a ampliação da comunicação entre embarcações e a disponibilização de informações meteorológicas online. Com dados atualizados sobre o fluxo de barcos e previsões climáticas, os comandantes poderiam ajustar suas rotas e velocidades, evitando condições perigosas.
Ele sugere, ainda, exigências técnicas que incluem a instalação de tanques de colisão, reforço estrutural das embarcações e a substituição gradual de barcos de madeira por modelos mais seguros. Para implementar essa transição, será necessário discutir subsídios ao transporte regional, visto que a precariedade muitas vezes decorre da baixa capacidade econômica da população ribeirinha. Sem um suporte financeiro, os passageiros dificilmente poderão arcar com um transporte de maior qualidade, o que tende a comprometer a segurança nas viagens.
A Realidade dos Acidentes no Brasil
Os dados da Marinha indicam que essa problemática não se restringe à Amazônia. Desde o início do século, o Brasil contabiliza mais de 21 mil acidentes de navegação, resultando em cerca de 5.600 mortes até janeiro deste ano, além de 1.175 desaparecidos. Apenas em janeiro de 2026, foram registrados 13 naufrágios e 13 casos de abalroamento, além de outras ocorrências envolvendo quedas e colisões. A maior parte das mortes acontece em embarcações de pequeno porte, como canoas e botes.
Recentes episódios, como o desaparecimento de um barco com seis pescadores em janeiro, reforçam a gravidade da situação nas águas brasileiras. Este barco, que partiu de Niterói (RJ), estava previsto para retornar em 19 de janeiro, mas, desde então, os tripulantes não foram encontrados.
