Uma Crise Humanitária em Curso
No dia 23 de janeiro de 2026, o Ministério Público Federal (MPF) do Amazonas protocolou uma ação civil pública contra o governo estadual e a prefeitura de Manaus, apontando o que considera uma grave crise humanitária enfrentada pela população indígena Warao na cidade. O órgão destaca omissões sérias em áreas essenciais, como saúde, assistência social, saneamento e segurança alimentar, ressaltando que a ausência de suporte adequado resultou em mortes evitáveis de crianças devido à desnutrição.
Ao longo de 2026, completam-se exatos dez anos desde que os Warao chegaram a Manaus, estabelecendo um acampamento ao redor da rodoviária, onde a maioria eram venezuelanos, incluindo cerca de 50% de crianças. Desde então, a resposta do governo e da prefeitura à crise humanitária vivida pelos venezuelanos tem sido frequentemente impulsionada por solicitações de órgãos fiscalizadores, como ministérios públicos e defensorias.
A Permanência do Estado de Emergência
Apesar dessas iniciativas, as ações voltadas para os Warao continuaram a manter um caráter emergencial, sem um plano de ação específico que vá além da oferta de abrigos temporários. Os Warao, um povo originário da região do delta do rio Orinoco, na Venezuela, chegaram ao Brasil em busca de melhores condições de vida, fugindo da severa crise econômica e política que se instaurou em seu país por volta de 2015.
Ao chegarem a Manaus, os Warao se instalaram inicialmente de forma autônoma, em condições precárias. Com o tempo, começaram a utilizar os abrigos públicos oferecidos pelo governo e pela prefeitura, mas, segundo o MPF, cerca de 800 indígenas dessa etnia ainda vivem dispersos pela cidade, com poucos deles residindo nos abrigos disponibilizados no bairro Tarumã.
Um Povo em Movimento
Além de Manaus, os Warao já se deslocaram para outros estados brasileiros, como Pará e Rondônia, e, em 2019, estavam presentes em cidades de todas as regiões do Brasil. Globalmente, a população Warao é estimada em 49 mil na Venezuela, 1.400 na Guiana e cerca de 7 mil no Brasil, incluindo mais de mil crianças nascidas no país. Registros também indicam a presença de famílias Warao na Argentina, Bolívia e Peru, embora não haja dados oficiais sobre esses grupos.
A Operação Acolhida e Seus Limites
Lançada em 2018, a Operação Acolhida representa a resposta do governo federal à crise humanitária na fronteira, especialmente a partir de 2016. Sob a supervisão do Ministério da Defesa e com o suporte de organizações internacionais, essa operação tem como pilares o ordenamento da fronteira, abrigamento e a interiorização dos venezuelanos. Contudo, não existe um plano específico para os Warao dentro dessa estratégia.
A interiorização, que visa encaminhar os venezuelanos a postos de trabalho em outros estados, raramente é viável para a maioria dos Warao, dada a necessidade de um contato prévio em suas novas cidades de destino, algo que nem sempre se aplica à sua realidade. Assim, muitos Warao optam por buscar a interiorização por conta própria.
Desafios Estruturais e a Necessidade de Ações Concretas
No âmbito local, em 2023, foi criado o Comitê Municipal de Políticas Públicas para Migrantes e Apátridas (Compremi), que elaborou o 1º Plano Municipal de Políticas Públicas para Migração, Refúgio e Apátrida de Manaus, apresentado em uma cerimônia pública em julho de 2024. Embora a capital amazonense tenha sido pioneira na criação desse plano, a realidade vivida pelos indígenas migrantes e refugiados ainda não mostra mudanças significativas nas condições de vida deles.
Os abrigos, concebidos como uma solução emergencial, tornaram-se quase uma política permanente para os Warao, sem que houvesse um protocolo adequado para promover a inserção social e econômica desse povo. Assim, muitos Warao permanecem nos abrigos por períodos superiores ao planejado, sem conseguir restabelecer sua autonomia. A falta de um suporte eficaz tem gerado uma situação de dependência e marginalização.
Barreiras Linguísticas e Invisibilidade Social
Outro fator que agrava a situação dos Warao é a barreira linguística, uma vez que a maioria fala sua língua materna e tem o espanhol como segunda língua, sem a devida alfabetização para acessar cursos profissionalizantes, por exemplo. Sem apoio institucional, muitos enfrentam uma invisibilidade social crescente, desaparecendo do radar dos serviços de saúde, educação e habitação da cidade.
Um Futuro Incerto
Completando uma década em Manaus, os Warao se estabeleceram como comunidades, porém, muitos ainda enfrentam desafios significativos, sem o apoio necessário do estado. Nem nos abrigos, que oferecem apenas uma permanência temporária, têm encontrado as condições adequadas para sua sobrevivência. De acordo com pesquisas realizadas, a população Warao fora dos abrigos se vê cada vez mais invisibilizada e afastada dos serviços essenciais, dificultando sua integração e sobrevivência na sociedade local.
