A Nova Realidade da Globalização
A história não é determinada apenas por quem antecipa crises, mas por aqueles que buscam construir alternativas antes que elas se concretizem. Nas últimas décadas, a globalização foi vista como um fenômeno quase inevitável, desprovido de contornos políticos. No entanto, a atualidade traz à tona verdades que muitos preferiram ignorar: a produção é poder, e as cadeias produtivas, soberania. A concentração excessiva de elementos fundamentais no sistema global não se configura apenas como uma questão de eficiência, mas revela uma fragilidade estrutural que, nas relações internacionais, se torna um convite ao conflito.
Não se trata de uma nova era gerada por rupturas ideológicas, mas sim pela exaustão de um modelo que, ao longo do século XXI, reconduz a política a um espaço que nunca deixou de ser seu.
MAGA: Um Sintoma de Poder
O movimento MAGA (Make America Great Again) frequentemente é interpretado como um fenômeno cultural ou eleitoral. Contudo, essa visão é restrita. O MAGA reflete uma mudança significativa na percepção dos americanos sobre a perda de autonomia material. A liderança de Donald Trump não criou essa realidade; ao contrário, vocalizou um sentimento latente. A terceirização de partes essenciais da autonomia industrial e tecnológica dos Estados Unidos, em busca de ganhos imediatos, revelou-se prejudicial à economia interna, que viu empregos desaparecerem e comunidades se esvaziarem.
O MAGA não busca um isolamento nostálgico, mas uma reestruturação estratégica que busca reverter a dependência. O objetivo não é a rejeição ao comércio, mas a busca por uma autonomia que garanta segurança nacional sem abrir mão da eficiência.
Taiwan e o Risco de Dominação
Taiwan ocupa uma posição única no cenário global. Pequena demais para ser uma potência autônoma, mas grande o suficiente para não ser ignorada, o território concentra uma combinação rara de tecnologia de ponta, capital humano e escala. A instabilidade em torno de Taiwan é um risco conhecido, mas há um perigo mais profundo: a possibilidade de a China dominar a produção de semicondutores. Essa dependência pode transformar o mercado global em um campo de coerção, onde a escolha entre dependência barata e autonomia custosa não se apresenta de forma neutra.
Redundância: O Novo Conceito de Soberania
Em resposta a esses riscos, os Estados Unidos não optaram por um retorno nostálgico ao passado, mas por uma nova arquitetura: a redundância. Este conceito vai além da mera eficiência; é uma estratégia de segurança sistêmica. O retorno de parte da produção ao território americano, assim como a diversificação entre aliados confiáveis, busca garantir a continuidade estratégica, mesmo que a eficiência em curto prazo seja sacrificada.
O Brasil na Nova Ordem Mundial
O Brasil, neste contexto, revela-se como um ator que pode ou não se impor na nova geopolítica. Ao longo da história, o país preferiu uma postura de neutralidade, evitando confrontos diretos, mas isso resultou em uma relevância funcional questionável. A Zona Franca de Manaus (ZFM), por décadas, foi vista apenas como uma exceção fiscal, não como um ativo geopolítico, um entendimento que tem se mostrado um erro. A ZFM pode funcionar eficientemente em ambientes complexos, o que é raro no Brasil.
Manaus e a Redundância Estratégica
A Zona Franca de Manaus não deve buscar se tornar um novo Vale do Silício. Seu papel é oferecer uma redundância industrial de alto valor fora das áreas de maior conflito. A região pode se tornar um importante hub logístico aéreo, especialmente em um momento em que o mundo enfrenta gargalos marítimos.
Amazônia e Soberania Material
A Amazônia é um componente crucial nesse novo arranjo. A história mostra que não se pode pensar apenas na extração de recursos, mas na criação de uma infraestrutura que integre tecnologia e processamento industrial. Inserir terras raras no projeto da ZFM não é apenas uma questão de exploração, mas de retenção de valor.
A Lição da Borracha
O Amazonas já vivenciou a perda de sua centralidade, como ocorreu com a indústria da borracha. O mundo agora se encontra em um momento que exige a revalorização de territórios antes esquecidos. A história mostra que a necessidade geopolítica pode transformar a relevância de uma região. O Amazonas pode deixar de ser visto apenas como uma fonte de matérias-primas para se tornar um centro de estabilidade e inovação.
Decisões Estruturais e Oportunidades
O Brasil possui a oportunidade de moldar seu futuro em um mundo que já mudou. A Zona Franca de Manaus pode ser reconhecida não apenas como uma política regional, mas como um ativo estratégico em um cenário global que valoriza resiliência e capacidade logística. A pergunta que se coloca é se o Brasil irá se limitar a ser um consumador de decisões ou se irá, de fato, participar da construção deste novo cenário.
