Crescimento Preocupante da Violência de Gênero
Manaus, 8 de março de 2026 – O estado do Amazonas enfrenta um aumento alarmante nos casos de violência contra mulheres, evidenciado por dados que contradizem as afirmações oficiais sobre a segurança pública em vigor sob a gestão do governador Wilson Lima, do União Brasil. Segundo o relatório “Elas Vivem: A Urgência da Vida”, da Rede de Observatórios da Segurança, o número de registros subiu de 604 para 1.023 em um ano, representando um aumento de 69,4%.
Este documento faz parte de um balanço anual que analisa a violência de gênero em nove estados brasileiros, utilizando a metodologia conhecida como estatiativismo. Essa abordagem visa tornar visíveis fenômenos que frequentemente não são apresentados nas estatísticas oficiais, pressionando o poder público a agir.
Discurso Oficial e Realidade Ameaçadora
De acordo com a pesquisa, autoridades do Amazonas têm utilizado dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública para justificar a alegação de que o estado possui uma das menores taxas de feminicídio do Brasil. Essa narrativa reforça a imagem de um ambiente relativamente seguro para mulheres, mas o levantamento da Rede de Observatórios evidencia uma realidade mais impactante.
O estudo revela que o Amazonas registrou mais de mil casos de violência de gênero, posicionando-o entre os estados com os maiores números absolutos de ocorrências, ao lado de São Paulo. Esse dado é alarmante, especialmente considerando que a população do Amazonas é cerca de dez vezes menor que a do estado paulista.
Incidência de Violência Sexual e Vulnerabilidade Infantil
Um dos pontos mais preocupantes indicados no relatório é o aumento da violência sexual, que, segundo os pesquisadores, é um dos sinais mais alarmantes da crise de proteção às mulheres e meninas no estado. Foram monitorados 353 casos de violência sexual, com 78,4% das vítimas na faixa etária de 0 a 17 anos. Dentre este grupo, 31,4% eram crianças de até 11 anos, um dado que expõe a alta vulnerabilidade infantil.
A violência sexual abrange crimes como estupro e estupro de vulnerável, este último se aplica quando a vítima é menor de 14 anos ou não pode consentir. É importante enfatizar que, de acordo com a legislação, tais crimes ocorrem independentemente de alegações de consentimento.
Além disso, registros da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS) apontam que, entre 2021 e 2022, houve 1.292 partos de meninas entre 10 e 14 anos, um indicador muitas vezes correlacionado com casos de violência sexual contra crianças.
Ambiente Doméstico e Tentativas de Feminicídio
O ambiente familiar é destacado como o principal local de risco para as mulheres no Amazonas. O levantamento identificou 367 casos de violências cometidas por parceiros ou ex-parceiros. Esses dados mostram que a maioria das agressões ocorre dentro de relações afetivas ou familiares.
Além das agressões, o estado contabilizou 383 tentativas de feminicídio e 90 mortes violentas de mulheres, o que inclui feminicídios e homicídios. Esses números ressaltam o impacto das agressões não letais na escalada da violência de gênero, com muitos episódios servindo como precursor de crimes mais graves.
Apagão de Dados e Invisibilidade das Vítimas
O relatório também evidencia um apagão informativo sobre a violência de gênero no Amazonas, evidenciado pela carência de dados oficiais e pela falta de informações essenciais sobre as vítimas. Por exemplo, 92,3% dos feminicídios no estado não registram a raça das mulheres assassinadas, o que prejudica uma análise mais aprofundada sobre quem são as principais vítimas dessa violência.
A ausência de dados e a falta de transparência nas informações de segurança pública no Amazonas têm sido criticadas. Desde 2013, apenas uma edição do Anuário Estatístico de Segurança Pública foi publicada, comprometendo a compreensão da violência, especialmente nas áreas mais remotas do estado.
Reflexo de uma Crise Nacional
O aumento da violência contra mulheres no Amazonas não está isolado; reflete uma tendência nacional. De acordo com o relatório “Elas Vivem”, a violência sexual no país cresceu 59,6%, com uma notável vulnerabilidade de crianças e adolescentes. O ambiente doméstico continua sendo o lugar mais frequente para a ocorrência de agressões, com 56,1% dos autores sendo parceiros ou familiares das vítimas.
Além disso, a fragilidade das medidas protetivas da Lei Maria da Penha é evidente, com um número alarmante de mulheres sem proteção formal em diferentes estados. A falta de efetividade dessas medidas evidencia uma necessidade urgente de revisão e fortalecimento das políticas públicas para proteger mulheres e meninas no Brasil, abordando questões estruturais que favorecem a violência.
