Retomada das Obras da BR-319
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva programou uma visita a Manaus na segunda quinzena de abril para inaugurar trechos reformados da BR-319, rodovia que conecta o Amazonas ao restante do Brasil. Durante sua passagem, Lula também fará anúncios relacionados a novas obras, em um momento em que a rodovia, que completa 50 anos, enfrenta críticas por seu estado de abandono.
A retomada das obras da BR-319 é uma das principais demandas da população local, que há anos clama por melhorias na infraestrutura da região. Em um cenário político de debates eleitorais antecipados e uma reeleição que se mostra mais desafiadora do que o esperado, Lula busca se reconectar com o eleitorado do Amazonas, uma base que historicamente apoiou o PT, mas que nos últimos anos tem se aproximado do bolsonarismo.
A decisão de reiniciar as obras foi o último ato do ex-ministro dos Transportes, Renan Filho (MDB), antes de deixar o cargo para concorrer ao governo de Alagoas. Ele destacou que a pauta é bastante popular entre os cidadãos: “Manaus é a única grande cidade do mundo que não tem acesso por asfalto”.
Agenda de Campanha e Alianças Estratégicas
Lula deve conduzir sua agenda no Amazonas em um estilo de campanha, acompanhado do líder do MDB no Senado, Eduardo Braga, e do senador Omar Aziz (PSD). Esses dois aliados oferecem suporte em um momento crucial, já que Braga busca renovar seu mandato e Aziz é um pré-candidato ao governo do estado.
Ambos os senadores têm trabalhado para facilitar o diálogo com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Recentemente, eles se reuniram para discutir a votação da indicação de Jorge Messias, atual ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), para o Supremo Tribunal Federal (STF).
Durante a visita, Lula deverá inaugurar as pontes sobre os rios Curuçá e Autaz Mirim, além de entregar o asfalto de um trecho de 20 quilômetros conhecido como “trecho Charles”, e visitar o canteiro de obras da ponte sobre o rio Igapó-Açu, que atualmente é atravessada por balsa. O edital para a construção dessa ponte, que custará cerca de R$ 678 milhões e terá um prazo de execução de três anos, será publicado em 10 de abril. A BR-319 tem um total de 885,9 quilômetros, conectando Manaus a Porto Velho e abrangendo 13 municípios, 42 Unidades de Conservação e 69 Terras Indígenas.
Desafios Ambientais e Históricos
Por quase três décadas, trechos da BR-319 continuam não pavimentados, isolando o Amazonas do restante do país. Inaugurada em 1976 durante o regime militar, essa rodovia é a única ligação terrestre com o Amazonas, facilitando o acesso a cidades como Humaitá, Lábrea e Manicoré. No entanto, a expansão da estrada tem sido criticada por ambientalistas que alertam sobre o risco de desmatamento. Por outro lado, a falta de infraestruturas adequadas dificulta a logística e o socorro à população em situações de emergência, como demonstrado durante a pandemia, quando a falta de acesso a medicamentos e oxigênio se tornou um problema crítico.
A discussão em torno da BR-319 ganhou força após um confronto entre senadores e a então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, em maio do ano passado. Durante esse embate, Omar Aziz fez acusações de “intransigência” contra a ministra devido à paralisação das reformas da rodovia. A tensão aumentou a ponto de Marina afirmar que não era uma “mulher submissa” e decidir deixar a reunião.
A recente aprovação da Licença Ambiental Especial (LAE) no Senado em dezembro, sancionada por Lula na véspera do Natal, possibilitou a retomada das obras. Em uma visita a Manaus, Marina comentou que, se as obras forem realizadas com segurança e respeitando as normas ambientais, é possível avançar. Contudo, enfatizou que qualquer descuido poderia resultar na “destruição do coração da Amazônia”.
Importância Estratégica para o Futuro Eleitoral
Durante uma visita anterior ao Amazonas, Lula afirmou em entrevista à Rede Amazônica que seu governo iria retomar a pavimentação da BR-319, em diálogo com ambientalistas e considerando a necessidade de conectar capitais como Manaus e Porto Velho.
A BR-319 é um projeto de extrema relevância, a ponto de o ex-presidente Jair Bolsonaro ter tentado reiniciar as obras, sem sucesso. O ex-vice-presidente Hamilton Mourão chegou a fazer uma declaração contundente, prometendo que “comeria a própria boina” se a obra não fosse adiante.
Em conversa com o Valor, Eduardo Braga enfatizou que vencer no Amazonas é tão crucial quanto em Minas Gerais nas eleições presidenciais. Não pelo número de eleitores, mas pela representatividade que Manaus possui, com sua diversidade de cidadãos e visões oriundas de todo o Brasil.
A disputa eleitoral promete ser acirrada, e cada voto pode ser determinante. Lula enfrenta o desafio de recuperar a popularidade que perdeu no Amazonas, onde, em 2006, obteve 86,8% dos votos válidos, enquanto em 2022 a margem de vitória foi bem menor: 51,1% a 48,9% contra Bolsonaro, evidenciando um cenário muito diferente do passado.
